Subterrâneo: Noite Abissal Fest
Com as bandas: Impurge (Groove Death Metal), Cruciate (Death Metal), Unsighted (Death Metal), Infernal Atröz (Black Thrash Metal), Café Preto Sem Açúcar (Goregrind)
Data: 15/11/2025
Local: Beco Bar – São José/SC
Fotos by: DaniAraujo.arte / Daninfico
Uma parceria entre a banda Cruciate e o Coletivo Paredão de Florianópolis organizou essa noite abissal nos subterrâneos da cidade de São José, no Beco Pub. O evento foi realmente muito bom, e um ótimo público compareceu.
Às 21 horas em ponto coube ao quarteto de Florianópolis abrir o evento, e a Cruciate fez um show matador e violento! Executaram um setlist curto e direto, que trouxe o caos à pista, com o público batendo cabeça e abrindo rodas. Mandaram as músicas: Name The Shame, Sea Of Cancer, Shredded To Pieces, Sacrifice e Dirty War. Guitarras afiadíssimas e bateria rápida e brutal! A banda é extremamente violenta ao vivo, com seu death metal old school com uma pegada goregrind e brutal.

Rubia Domeciano (baixo), Renan Uller (bateria & backing vocals) e Ardley (guitarra) entregam peso e agressividade, com um instrumental simples e direto que destrói em cima do palco! Mas é fato que a vocalista Lakshmi rouba a cena. Essa garota entrega uma apresentação caótica, violenta e agita muito no palco, empolgando o público com seus vocais cavernosos e rasgados! A forma como ela se comporta no palco me lembrou Nata Nachthexen, vocalista da excelente banda paulista Manger Cadavre. A Nat fazendo escola. Fecharam o show com Smell Of Decay, com o público ovacionando a banda.
A segunda banda da noite veio de Blumenau, Santa Catarina, mas conta com dois integrantes do Nordeste do Brasil: o vocalista Kavalcant e sua esposa Face of Darkness (baterista). Moram em Blumenau há algum tempo. A banda também conta com dois catarinenses: Anärcö Infrätör (baixo) e Renegado 666 (guitarra). Fazia tempo que eu queria vê-los ao vivo. Tive duas oportunidades anteriores — a primeira em Rio Negrinho (SC), no Magos Bar, e a outra em Joinville — mas nas duas ocasiões cheguei apenas no final da apresentação, infelizmente.
Infernäl Atröz tem um demo-CD autointitulado lançado em 2024, e o som dos caras é agressivo, sujo, violento e com uma pegada de black thrash metal satânico. O quarteto fez um set curto e direto, sem frescura!
Iniciaram o show com uma intro e mandaram: Diva Diabólica, A Noite da Caçada e Infernäl Atröz. O som é rápido, sujo, com riffs infernais e bateria veloz, simples e direta! O público die hard abriu rodas na pista e bateu cabeça alucinado com os hinos infernais que saíam do sistema de som.
Mais hinos satânicos foram entoados: Eles Desejam a Morte e Cantando Para os Mortos. O vocalista Kavalcant sempre se comunica com o público, explicando as letras e o posicionamento da banda. Aliás, a banda flerta em suas letras com a filosofia da mão esquerda e faz questão de assumir que segue a Kimbanda brasileira.

O som do Infernäl Atröz é um black speed thrash metal com pegada dos thrashers teutônicos do Desaster e muito daquele thrash metal dos anos 80, com riffs e bases poderosas, vocais rasgados e viscerais, baixo marcante e bateria rápida com viradas brutais. Ou seja: rápido, sujo, agressivo e satânico, além da influência do metal brasileiro do Vulcano e do velho Sepultura. Em Eles Desejam a Morte, por exemplo, o riff inicial e o clima remetem ao clássico Troops of Doom. Mas é influência, não cópia! Caminhando para o final, mandaram mais duas pedradas: Black Thrash Massacre e Azazel. O guitarrista Renegado 666 se virou nos 30 segurando as bases e riffs sozinho. O som deles ficaria ainda mais matador com uma segunda guitarra. Saíram do palco aplaudidos, e o público curtiu muito o som satânico do grupo.
A próxima banda dessa noite abissal também é de Floripa e executa um death metal mais trabalhado e técnico: era a vez do Unsighted — banda que eu não conhecia! Os caras mandaram duas músicas próprias, Necromancer e Artificial Dreams, e pensei: “Nossa, isso é puro Death!” Tanto o vocal quanto o instrumental tinham muita influência da lendária banda de Chuck Schuldiner.
A minha surpresa aumentou quando Rafael “Cancerozo” Schwabe (vocal e guitarra), Robert Schwabe (backing vocal e guitarra), Gustavo “Salame” Oselame (baixo) e Jovi Moraes (bateria) anunciaram a próxima música: Crystal Mountain (Death). Executaram perfeitamente esse clássico do metal da morte mundial. Mandaram ainda Return of the Archon e Deserve. A influência de Death é clara, e o público apenas observava a banda no palco; a pista ficou mais calma, com o pessoal curtindo a performance.
Infelizmente, caminhando para o final da apresentação, justamente a banda que mais precisava de uma boa aparelhagem teve problemas no som, e as guitarras sumiram do sistema, prejudicando bastante as três últimas músicas. Ainda assim, mandaram mais uma homenagem ao Death (The Philosopher), além da própria Undrained, e fecharam com outro cover da banda: Trapped in a Corner. O público curtiu, e a banda gostou da recepção.
A próxima banda — ou melhor, um duo — formado por Luís Miguel (guitarra/vocal) e Raul Gabriel (bateria), me chamou atenção já no cartaz. Não levei muito a sério o nome da banda, mas não sou de julgar ninguém. Se eu não gostar, tudo bem: ninguém é obrigado a agradar a todos.
O duo, com uma nomenclatura no mínimo estranha no submundo, chama-se Café Preto Sem Açúcar — e fez um dos shows mais violentos, brutais, agressivos e insanos que já presenciei.
A dupla é muito jovem (menos de 20 anos), mas com muita atitude, conhecimento e postura dentro do estilo que tocam: um goregrind esporrento, bruto e anti-melodia. Executaram 27 músicas, com nomes hilários. Conversando com Raul, ele explicou que, embora sarcásticas, as letras têm profundidade.
Mandaram pérolas como: Cadáver em Putrefação por Cafeína, Coffegore Machiato, Oxidação Cerebral, Não Vivo Sem Você, (Café) Só Mais Um Dia e Violência Animal. A pista virou um pandemônio! O público e a dupla entraram em sinergia insana. Luís e Raul, ambos usando toucas negras que combinaram com a loucura do som, pareciam “dois terroristas contra quem faz música técnica e melodiosa”.
Guitarra suja e agressiva, bateria rápida e violenta, vocais ultra-guturais. Seguem com a violência anti-melódica em faixas como: Dominação do Maquinário do Cafezal, Acorda, Toma Café e Destrói o Estado, Grãos Torrados no Orifício de um Nazi. Sim: a dupla é viciada em café. Segundo Raul:
“Nossa temática é toda voltada para o café. Parece só zoeira, mas por trás do café teve muita história envolvendo política.”
E faz sentido — basta lembrar da “política do café com leite” das elites paulistas e mineiras no início do século XX.
A apresentação seguiu com: Destruição, Free Palestine, Gore Fire in the Neolithic, O Barulho que Ninguém Escuta e Hog Rider Noise. A pista virou um caos com a apresentação da C.P.S.A.: público ensandecido, rodas violentas e muitos aplausos ao final de cada desgraça sonora.
Os integrantes explicaram que fazem um estilo pouco conhecido em Floripa, chamado Mincegore, uma vertente do mincecore que vem do grindcore. Mistura grind, gore e mincecore. Entenderam? Eu não! (Hahaha)
Continuando com as palavras de Raul: “Sim, nossa banda é cômica e caótica. Tenta trazer o caos bem caótico com um lado meio político. Lutamos contra a indústria musical que visa só vender música sem sentimento. A gente faz música feia com sentimento.” Eles também afirmam ter um posicionamento anarco, com “bem pouca pitada de comunismo”, sendo pró-liberdade e anti-direita, bem como contra pensamentos preconceituosos e religiosos.
Chegando ao fim da apresentação insana, tocaram Noise Aleatório, Improviso e Anti Porn Grind. Confesso que não conheço quase nada da cena mencionada pela dupla, embora goste de algumas bandas de grind. Minha linha é mais death splatter, death doom metal e adjacências… Mas essa dupla me chamou atenção pela energia, violência sonora e performance insana.
O público aplaudiu muito e pediu “mais uma!” repetidas vezes. Gostei da postura da dupla, e foi bonito ver tanta molecada apoiando — isso é fundamental para a renovação da cena.
Para fechar a noite abissal, era a vez do quarteto feminino de Florianópolis: Inpurge. Banda que surgiu das catacumbas frias e escuras da cidade recentemente e vem chamando atenção no submundo catarinense.
Eu ainda não tinha tido o prazer de vê-las ao vivo, então a expectativa era grande — e felizmente não me decepcionaram!
A Inpurge conta com garotas experientes da cena local: Larissa (Alocer) nos vocais, Isadora (guitarra/baixo), Jacyara (guitarra/baixo) e Rafaela (bateria). O público se aglomerou em frente ao palco para prestigiá-las.
As gurias fizeram um set matador! Se a banda que abriu a noite havia feito um show violento e anti-música, anti-técnica, anti-melódia, a proposta da Inpurge é o oposto.
Abriram com Violence e Slug. O início já foi intenso e lindo de ver; a postura das gurias é técnica, virtuosa e focada. A próxima música, Helpless Hate, foi lançada recentemente como single para divulgar o futuro full-length.
Em seguida, veio Drowned. Isadora assume o baixo, Jacyara assume a guitarra, e ambas mostram que são musicistas exímias.
O som da banda tem uma pegada extrema, algo entre black metal moderno e death metal direto, com groove, melodias e passagens de heavy metal tradicional, principalmente nas bases e solos.
Caminhando para o final da apresentação, tocaram Unburnable e Lockdown. O metal extremo das gurias me chamou atenção: som bem feito, refinado, técnico, bom gosto puro — e sem soar chato ou sonolento. O público apoiou do início ao fim.
Fecharam com Guts. Achei interessante como a Larissa canta de forma mais contida na Inpurge, diferente do Spiritus Diabolus ou da atual banda Alocer, com vocais mais técnicos e controlados aqui.
Acredito que elas vão longe e terão destaque na cena underground brasileira. Potencial e vontade não faltam. Se depender dos metalheads desta noite abissal e da cena de Floripa, os manezinhos já abraçaram as gurias!
Assim terminou uma noite perfeita na Grande Florianópolis. O ponto triste foi que este foi o último show de metal no Beco Bar, que fechará suas portas. O Beco era ponto de referência e resistência underground na Grande Floripa, por onde passaram grandes bandas do submundo — entre elas o Anal Vomit, do Peru, entre muitas outras lendárias.
Todos que habitamos os bueiros e valas sujas do underground sabemos que ninguém faz nada sozinho, e que o submundo sempre dependeu da união e da coletividade para se manter vivo. Este evento é prova disso.
Parabéns aos organizadores, às bandas e ao público que compareceu!
Foi lindo ver todos juntos, felizes, e o espírito de apoio e irmandade estava explícito na cara de cada um nesta noite abissal, apoiando o subterrâneo!
Agradeço o apoio e recepção da Rúbia Domiciano, Renan Uller e dos amigos que encontramos nesta noite insana!
Unidos somos fortes!!!