
O underground brasileiro não deixa de nos surpreender, é fato! Avalanche de bandas que surgem no cenário e muitos lançamentos saturam um pouco a cena; alguns lançamentos e bandas muitas vezes deixam a desejar, até porque quantidade nunca foi fator de qualidade, não é mesmo? Saindo das catacumbas do interior de Santa Catarina surgiu o Corrosive Nails, em 2022. Em novembro de 2025, lançaram o álbum “Fragments of a Broken Faith” de forma independente e entrou na lista dos melhores lançamentos do ano em várias revistas, fanzines e sites especializados em Heavy Metal. Fomos conversar com a banda que nos contou um pouco de sua história e planos para o futuro.
Saudações irmãos do Submundo! Sejam bem vindos ao The Old Coffin Spirit Zine. Vocês poderiam apresentar à banda para nossos leitores e nos apresentar seus integrantes e como surgiu a Corrosive Nails?
Cleiton/Corrosive Nails – Saudações Old Coffin Spirit, é um prazer estar aqui falando com vocês. A banda é formada por Cleiton – Guitarra e Voz, Evandro – Guitarra Solo, Cristian – Baixo e Ivan – Bateria. A banda surgiu numa ideia bem sem compromisso de tocar covers de Thrash Metal na época. A ideia era apenas reunir os amigos, tomar uma cerveja e tocar um som. Depois veio a ideia de fazer música autoral.
Eu moro em Santa Catarina já faz 25 anos e a cena catarinense é muito forte no submundo brasileiro. Temos várias bandas respeitádissimas, vários festivais fortes e um público fiel, apesar das mudanças no mundo contemporâneo não ter mais aquela paixão e devoção por exemplo como era nos anos 90. A cena é muito centralizada no Norte e Sul catarinense.
O planalto Norte catarinense é meio distante para nós apesar da facilidade dos dias de hoje. Eu não conhecia a banda! Gostaria que você nos falasse mais sobre a cena de Canoinhas (SC) e região do oeste do estado. Bandas, festivais e bares. Como é a cena Underground em sua região?
Cleiton – Então, a gente tá localizado no Planalto Norte de SC. Na nossa cidade, Canoinhas, não existe uma cena formada ainda. Porém na região tem muita coisa foda rolando. Em Rio Negrinho temos o Magos Bar de grandes amigos nossos, a cidade também tem várias bandas fodas como: Precipício, Bomba no Porão, Distoam, Face do Horror e muitas outras. Também tem o Beco complexo do rock, em São Bento do Sul, que tem uma cena forte e também União da Vitória e São Mateus do Sul, que apesar de serem no Paraná, estão bem próximos da gente. A gente tem tentado movimentar a cidade, fizemos um festival para lançar nosso disco onde contamos com a Nighrider do nosso grande amigo Marcelo, Orthostat e Away From the sun.
Pois é, Cleiton quem me falou da sua banda Corrosive Nails, foi exatamente o grande amigo Marcelo Fagundes. (ex-Battalion e atual Nightrider) Como ele falou muito bem da banda fui pesquisar e gostei do trabalho de vocês. Coisas do mundo contemporâneo. Nos anos 90 e início dos anos 2000, alguém indicava ou falava de uma banda e a gente levava meses e até anos para ouvir um trabalho da referida banda. Hoje é só pesquisar nas plataformas de streaming e curtir ou não, o som da banda. Cara, como você vê o atual cenário Underground e o que você acha das plataformas de streaming?
Cleiton – Verdade meu amigo, hoje em dia a gente tem essa facilidade pra ouvir som. Na minha opinião as plataformas de streaming são legais pela facilidade de ouvir e conhecer algo novo. Todo mundo consegue ouvir ali com facilidade. O problema só é que as plataformas não pagam os artistas de uma maneira bacana, isso é uma pena.
Pois é, meu amigo, coisas do mundo capitalista que trata a arte descartável. Eu mesmo sou viciado em música. Nos anos 90, eu vivia com um walkman, fone de ouvido e um monte de fitas K7 gravadas e pilhas na mochila da escola. Hoje tenho Spotify e me ajuda bastante, ouvindo lançamentos quase em tempo real do seu lançamento e pasmem do mundo todo. Ainda compro material físico que me chama atenção. Aproveitando o gancho vocês lançaram o primeiro material em formato EP chamado: No Rest for the Mind, de 2022. Achei um trabalho matador! Poderia nos dizer mais detalhes sobre o mesmo? Produção e como surgiram as composições?
Cleiton – Então, o EP no Rest For The Mind conta com as nossas primeiras composições. Ele é puxado mais pra veia do Thrash Metal, com pequenas pitadas de Death Metal. Ele foi gravado no final de 2018, ano em que a banda surgiu. Porém ele só foi lançado em 2020 devido a problemas na banda. O EP também tem um cover da banda paulista de Death Metal Cemitério, que é uma grande influência pra gente. Na questão da gravação, ele foi gravado de forma improvisada e caseira, com os poucos recursos que a gente tinha na época. Foi produzido pelo Lucas Rafalksi e a capa foi feita por mim. Pois é, neste trabalho senti mesmo uma forte influência do Thrash Metal e algumas passagens de Death Metal. Achei um trabalho bem consistente e com uma boa gravação e achei interessante o trabalho da capa. Vocês têm, sim, uma influência do grande Cemitério e inclusive no vocal tem uma pegada na linha do Hugo Golon (Cemitério) mas também tem uma pegada do Armando Executor,do grande Flagelador.
Quais bandas brasileiras além dessas duas citadas, tem admiração e influência no trabalho da Corrosive Nails?
Cleiton – Nessa época a gente foi bastante influenciado por Cemitério e Flagelador como você citou. Também bandas como Whipstriker, Violator, Apocalyptic Raids, Poison Beer entre outras.Também admiramos muito bandas como: Orthostat, Zombie Cookbook, Flesh Grinder, Espectro, Away from The Sun, Nighrider, Precipicio, Podridão, Surra, Ratos de Porão e também não dá pra fugir do Sepultura né!? (hahaha)
Em uma conversa nossa você comentou que estavam cogitando fazer uma cover e estavam divididos entre os cariocas do Apokaliptic Raids, Flagelador e dos carniceiros catarinense do Zombie Cookbook e acabaram escolhendo “Natal Sangrento” do Cemitério. Vocês gostaram dos resultados finais para essa cover? Eu já peguei uns três shows do Cemitério em Santa Catarina e conheço pessoalmente o Hugo Golon e ele é um cara gente boa, assim como o Armando Executor também é gente fina. Pessoas que realmente habitam o submundo e vivem o metal sem estrelismo. Você já teve a oportunidade de mostrar essa cover para ele?
Cleiton – Gostamos sim do resultado final do cover, inclusive antes da gente gravar eu conversei com ele e perguntei se ele achava legal e autorizava. Ele adorou a ideia na época, e apoiou muito a gente. Encontramos ele duas vezes em Rio Negrinho e falamos sobre isso.
Um lance legal que eu achei que você citou sobre as influências da banda e achei fantástico que a banda de vocês, além de serem músicos e metalheads tem admiração por bandas brasileiras do submundo brasileiro e isso é importantíssimo. Acredito que pela idade de vocês e da região que vocês residem em Santa Catarina “a família Magos Bar”, tem uma certa culpa nisso, não é mesmo? O Magos Bar é um lugar que sempre apoiou o underground na região, não é mesmo?
Cleiton – Cara, com certeza eles têm muita influência nisso. Foi o primeiro local em que eu vi bandas de metal autoral tocando, conheci primeiro no YouTube e depois fui pessoalmente. Foi onde a gente fez nossa primeira apresentação no underground com a nossa antiga banda Nekromantik. Eles fazem um trabalho sensacional a mais de 15 anos, adoro o pessoal de lá.
Só por curiosidade. O nome do EP remete a um disco do grande Ozzy “Mr Madman” Osbourne (R.I.P.) que eu gosto muito: No Rest Of Wicked! (1988) Disco que marca a estréia do Zakk Wylde, como guitarrista. Esse trocadilho foi uma coincidência ou vocês já imaginaram ” No Rest For The Mind” como uma singela homenagem para um dos criadores do Heavy Metal ou nem pensaram nisso até então?
Cleiton – Pior que não foi pensado nisso não, mas achei muito legal a comparação. O nome surgiu meio na louca na época.
No final de 2025, vocês lançaram o debut-álbum e vocês realmente deram um passo muito grande na evolução da banda tanto no nível técnico quanto na produção. Você poderia nos dar mais detalhes sobre “Fragments Of A Broken Faith”? Como foi a produção, quem fez à arte da capa e como surgiram as composições para esse trabalho?
Cleiton- Vamos lá, esse disco foi um processo muito lento na realidade. As primeiras músicas dele surgiram ainda em 2019 após a gente gravar o EP. No caso são as músicas Dying Inside e Hatred. A Call for Annihilation foi feita pelo Vando em 2020. O restante foi feito por mim em 2021. Claro que isso que estou falando é o embrião das músicas, depois a gente nos ensaios foi lapidando as ideias e cada um foi dando a sua identidade na música. As letras sempre vem por último no processo, tem letras feitas em 2019 e tem letras feitas em 2024. Em relação a gravação, novamente foi feita pelo Lucas Rafalski que também mixou e masterizou todo o trabalho. O disco foi gravado em uns 4 finais de semanas em sessões espaçadas, a primeira foi em outubro de 2023 e a última foi pela metade de 2025. Na primeira sessão gravamos 4 músicas e na segunda gravamos mais 4. Os baixos, solos e vocais foram feitos depois. A ideia inicial era lançar em 2022, o tempo voa (hahahaha) Também demoramos para decidir nome e capa, foi tudo feito aos 45 do segundo tempo. (hahaha) Por sorte encontramos o grande Marcelo Almeida da Thedarksideart que tinha essa arte disponível no seu portfólio. A ideia do nome do disco veio do Cristian, nosso baixista.
O primeiro trabalho da banda, No Rest Of The Mind, vocês tinham uma pegada mais Thrash Metal com um pé no Death Metal. No full length a banda partiu para uma pegada mais direta e violenta, caindo de cabeça no Death Metal. As influências de Thrash Metal continuam ali, mas de certa forma mais contidas. O que houve para essa mudança musical?
Cleiton – Então, no começo eu e o Cristian a gente ainda estava na nossa antiga banda, a Nekromantik que também era Death metal então a gente queria se diferenciar, a ideia inicial era um thrash meio Tankard com uma pegada mais sem compromisso. Após o fim da Nekromantik a gente acabou trazendo essas influências de Death Metal pra dentro da banda, o Vando nosso guitarrista é muito fã de Death Metal, então ele abraçou muito a ideia de migrar para o Death Metal, quando o Beto entra na batera ele também já traz uma bagagem de Death metal que ele também curte muito. Acredito que a música mais Thrash do disco é Hatred, que foi feita logo após o EP. Ela tem uma pegada meio Violator.
Foi um processo longo para surgir as músicas como você mesmo citou, e o período em estúdio foi muito rápido! Os resultados foram satisfatórios, não é mesmo? Eu particularmente achei um disco muito bom. Inclusive, entrou na minha lista dos melhores do ano de 2025, no Brasil. Como é trabalhar com o produtor Lucas Rafalski, ele é de sua região?
Cleiton – A gente ficou satisfeito com o resultado sim, saiu melhor que o esperado. Então, o Lucas é um amigo de infância nosso. A gente se conhece desde sempre, hoje em dia ele mora em Curitiba, mas ele vinha pra cá pra gravar as sessões com a gente. Até por isso a gente demorou um pouco mais, porque precisava conciliar a agenda dele também. Ele também é músico e toca na banda Away From the Sun. Agradeço demais por nos incluir na sua lista de melhores de 2025 meu amigo!

O disco,”Fragments of a Broken Faith”, abre muito bem com uma paulada que é a faixa A Call for Annihilation, com riffs poderosos e calcado no velho Death Old School Metal. Passagens mórbidas, brutais e com vocais desgraçados. Achei o disco bem diversificado e você escuta ele tranquilo. Outra faixa que me chamou atenção é a faixa que fecha o disco. Void tem uma pegada meio Doom Metal. Quais são suas músicas preferidas e que você apresentaria como cartão de visitas para quem acabou de descobrir a banda é esse poderoso disco?
Cleiton – A gente tentou fazer um disco meio diversificado, com essas pegadas que você citou, a Void á ideia dela era mesmo ser uma música que passa por vários gêneros, como o Doom que você citou e tem uma parte meio Black Metal também. Minhas favoritas do disco são: A call for annihilation, Lucifer FX e Void.
Não é fácil no Brasil ter uma banda de Heavy Metal e pior ainda de metal extremo. Não tem apoio e com as mídias sociais e toda à tecnologia disponível ficou muito mais fácil gravar um disco e divulgá-lo. Por outro lado, temos uma enxurrada de bandas e lançamentos todos os dias. O público cada vez menos adquirindo material físico, fica difícil para uma gravadora/selo investir em algumas bandas. Vocês lançaram dois discos muito bons. Foram lançados nas plataformas de streaming e vocês gravaram de forma independente. Existem possibilidades desses trabalhos ganharem versões físicas? Vocês já procuraram algum selo para fazer esses lançamentos?
Cleiton – Realmente não é fácil meu amigo, o trabalho do underground é pra quem gosta mesmo. Igual o seu trampo na Zine, é uma dedicação muito massa pelo underground. O nosso primeiro ep a gente acabou fazendo uma prensa caseira de 50 cópias. Em relação ao Full, a gente fechou uma parceria com o selo Lambrequim de Ponta Grossa – PR que vai lançar o Fragments of a Broken Faith em cd. Inclusive ele deve entrar em pré venda logo mais
Como já comentamos mais acima, o full length Fragments… saiu na lista de várias podcast, fanzines impressos, web-zine e na revista de circulação nacional Roadie Crew, como um dos melhores lançamentos do ano 2025. Nesta revista citada inclusive, músicos da Corrosive Nails concorrem como melhores músicos em seus instrumentos. Certeza que é uma boa conquista para banda e ajuda bastante na divulgação do nome da banda. Porém, minha pergunta é pertinente e necessária. Uma banda do submundo que vive no Underground, até que ponto é importante sair em uma revista, que na minha opinião vive em busca de vender “um produto e trata o Underground apenas como business”? 99% das bandas que saem nas páginas dessa revista são bandas do mainstream.
Cleiton – Então, eu não acompanho a roadie crew faz um tempinho. Mas acredito que a gente estando lá pode ajudar a atingir mais gente.
Algumas bandas que habitam o submundo e se dizem pertencer ao Underground, mas que só querem vender o seu peixe e não compram o peixe de outras bandas que vivem no Underground. Por exemplo: fiz algumas entrevistas e resenhei shows, e CDs que comprei com meu dinheiro e inclusive paguei o ingresso, e essas mesmas bandas não dão à mínima para ajudar na divulgação do trabalho que fiz para ajudá-las na divulgação. Não compartilham, não divulgam em suas páginas nas redes sociais. Vejo donos de selo Underground falando o mesmo sobre algumas bandas sob esse assunto. Tem também aqueles integrantes de bandas que só aparecem em shows quando sua banda toca no evento. Na teoria o Underground era para ser parceria e união como já foi no passado… O que você pensa desse assunto polêmico na cena Underground?
Cleiton – Então, esse assunto realmente é complicado né. Eu acho que não é legal uma banda que faz isso, se você quer ser apoiado tem que ir lá e apoiar também sempre que possível. É assim que a engrenagem do underground funciona. A gente sempre apoia o pessoal que nos dá uma força. É o mínimo também, compartilhar ali o trampo que alguém fez da sua banda. A grande maioria dos brothers do underground a gente conheceu em shows de outras bandas.
Como anda a agenda da banda para 2025 e aproveito o gancho para você descrever como é uma apresentação ao vivo da Corrosive Nails, para quem não os viu ainda ao vivo?
Cleiton – De show de divulgação do disco até agora teve apenas o de lançamento, iniciaremos os shows de divulgação em fevereiro no Blood Rock Bar em Curitiba – PR, depois vamos tocar em todos os lugares possíveis para divulgar o disco. Nosso show é bem direto, a gente toca o disco todo e mais duas músicas do primeiro ep (se o tempo de show permitir né?). Uma música atrás da outra sem enrolação, direto e reto. No passado a gente incluía covers no repertório pra preencher um show. Já tocamos covers de Obituary, Death, Repugnant, Benediction entre outros.
Que ótima notícia! Vocês fecharam uma parceria com o selo da cidade de Ponta Grossa (PR) para lançar o full length “Fragments of a Broken Faith” e como rolou essa conversa com o selo Lambrequim? Existe uma data para esse grandioso trabalho ganhar vida própria e quantas cópias serão lançadas?
Cleiton – Pra gente é uma alegria muito grande poder fazer essa parceria, o contato veio via Instagram mesmo. Já acompanhava o trabalho do Marco há algum tempo. A princípio serão 150 cópias.
Nossa normalmente às gravadoras lançam 300 cópias. Mas enfim, como vocês vêem a cena catarinense e brasileira?
Cleiton – A cena é muito rica, temos diversas bandas aqui no nosso estado. Grandes nomes do como Zombie Cookbook, Orthostat, Nightrider, precipicio entre outros. Brasil afora tem muita coisa foda rolando, destaco Podridão e Open the Coffin que lançaram excelentes discos em 2025.
Chegamos ao final da entrevista e obrigado pelo tempo cedido para nós. Suas considerações finais. Abraços!
Cleiton/Corrosive Nails – Quero agradecer primeiramente a você Walter, pelo convite pra gente trocar essa ideia aqui. Gostaria de mandar um abraço a todos os leitores aqui do Old Coffin Spirit e convidar pra colarem nos nossos shows em 2026. Um abraço meu amigo!!