

Fomos trocar uma ideia com o guitarrista Danilo Wagner, da banda Papa Necrose, de Salvador, Bahia. Eles lançaram recentemente o seu quarto álbum completo e ele nos dá mais detalhes sob Anthropomorphy Execution.(2026) Mais um lançamento da cena nordestina levantando a bandeira do metal da morte baiana.
Seja muito bem-vindo ao The Old Coffin Spirit! Para começarmos, poderia nos contar um pouco mais como surgiu as composições do novo álbum e como o público e a mídia especializada estão recebendo esse disco?
Danilo Wagner: Boa, meu irmão. Prazer imenso novamente estar por aqui. Muito grato a todo suporte que os zines sempre nos dão. O processo de composição do ANTHROPOMORPHY EXECUTION foi praticamente todo pensado por Luquian (nosso baterista). Ele teve uma inspiração absurda e fez o álbum, nós entramos com uma idéia aqui ou alí mas a base fundamental para o álbum sair foi do Luquian.
Meu caro, eu tive a oportunidade de ouvir o Anthropomorphy Execution apenas nas plataformas de streaming e com fones de ouvido, e gostei bastante! Em breve, vou adquirir a versão física. Poderia me contar como foi o processo de produção do álbum? Quem ficou responsável pela produção e mixagem desse artefato bélico? Vocês estão satisfeitos com o resultado final ou mudariam algo nele hoje?
Danilo Wagner: Muito obrigado meu irmão. Esse material demorou um pouco para ficar pronto, o processo de pré produção durou em média, 3 anos. Foi um álbum que queríamos dar um passo à frente, tanto tecnicamente quanto profissionalmente. Nosso baterista (Luquian) compôs a grande maioria das músicas e foi responsável também pela parte de engenharia sonora do disco, fazendo a mix/master do disco. Para mim o resultado foi muito satisfatório, uma das poucas vezes que realmente adorei a gravação, diferente da droga que fizeram na equalização do The Souls Collector Vatican. Eu não mudaria nada nesse disco, foi tudo perfeito. Espero que consigamos fechar shows pelo país para divulgar esse trampo, deixo aí a disposição para os produtores de eventos, vão ter trabalho zero.(RS)
O Luquian fez um bom trabalho. Quais são as diferenças entre contar com um produtor profissional contratado e ter a própria banda responsável por toda a produção e mixagem? O que você acredita que mudou neste processo de gravação e pretende que a banda continue realizando esse trabalho no próximo lançamento?
Danilo Wagner: Na verdade Luquian é profissional na área, ele se formou e se especializou, disso tudo, fomos muito sortudos e entregamos toda nossa confiança em quem sabíamos que a entrega seria acima da expectativa. Se tudo der certo, com certeza será Luquian que vai continuar, na verdade ele é um ávido estudante e profissional na área, tenho certeza que no próximo trabalho vem coisa daí pra pior. (rs)
Na resposta anterior, você mencionou que a banda tem a intenção de pegar a estrada e promover bastante esse novo trabalho. Nosso país possui dimensões continentais, e isso pode dificultar uma banda underground rodar o Brasil, os custos são altíssimos infelizmente. Vocês têm planos de passar pelo sudeste e sul do Brasil, caso alguns produtores dessas regiões demonstrem interesse em levar o culto anti-papal para suas cidades e estados? Como funcionaria a parte comercial e financeira para o Papa Necrose apresentar seu death metal old school nos subterrâneos?
Danilo Wagner: Pois é cara, conseguimos recentemente, sair da Bahia e levar nosso som para o Espírito Santo, inclusive gostaria de agradecer a irmandade de sempre com os brothers Gordoroth (Catacumba) e Alex Buk, que se esforçaram o máximo pra nos levar, foi incrível de verdade, uma experiência memorável. Estamos conversando com alguns contatos de São Paulo e Minas Gerais e seria sensacional se um dos nossos irmãos do sul nos levasse. Acredito que com planejamento e idéias boas, conseguimos fazer esse giro. Adoraríamos passar pelo sul e levar o peso do death metal nordestino.
Danilo Vagner, a última vez que tivemos uma conversa foi durante o lançamento do Full álbum The Souls Collector Vatican (2018), uma entrevista bastante interessante para o fanzine Maléfica Existência. Desde então, o que mudou para a banda em relação ao seu primeiro trabalho com Papa Necrose até este quarto lançamento, Anthropomorphy Execution (2026)?
Danilo Wagner: Você sempre nos deu muito apoio, precisamos de amigos assim, vez ou outra nos frustramos com babacas e pessoas tendenciosas que mancham o caminho do nosso underground, muita gente de banda falando merda, muito produtor escroto/aproveitador e muito headbanger perdido por aí. Eu posso dizer que tivemos um polimento maior na composição do disco, tivemos menos pressa e isso nos proporcionou um álbum mais completo e mais maduro. Digamos que conseguimos tratar a nossa arte de uma maneira mais detalhada e profunda. Outra coisa, estamos tendo críticas nacionais e internacionais, inclusive algumas críticas internacionais pesadas por decidirmos manter o legado do Old School. Nós jamais consideramos um problema se a crítica for por conta da nossa semelhança com bandas clássicas, entendam, isso é um elogio para nós.
Pois é,cara, há uma grande diferença entre preservar a tradição do velho metal da morte e ter influências e referências das bandas clássicas do estilo e não ser apenas uma mera cópia das mesmas. Felizmente, não vejo o Papa Necrose como uma cópia; ao contrário, consigo ver e ouvir uma identidade própria no som de vocês. Aproveitando a oportunidade para saber mais sobre as influências musicais da banda. Poderia nos dizer quais são as influências filosóficas e os temas que a banda aborda em suas letras?
Danilo Wagner: Pois é, não vejo as mesmas críticas para o Gruesome por exemplo. Nossas referências continuam as mesmas, Obituary, Death, Pestilence, Asphyx, Massacre, porém acrescentaria aí algumas coisas mais recentes que nós botamos como patamar de alcance no trabalho de mix e master, poderia citar aqui o Skeletal Remains (Cara, o vocalista acabou com a banda praticamente, o cara tá respondendo por abuso e importunação numas minas em um cruzeiro), Rude, Pyre, são bandas mais ou menos na nossa linha e que levantam a bandeira do old school death metal com extrema qualidade. Alessandro que é nosso vocalista, se baseia muito em fatos históricos das crises humanitárias e aproxima do que o catolicismo tem de influência, as movimentações políticas que manipulam todas as vertentes de domínio e o uso da religiosidade nesse controle mundial. Dessa forma, conseguem monopolizar a maior parte do mundo. Eu pessoalmente tenho muito interesse em literatura existencialista, Augusto dos Anjos, Kafka, Dostoievski, sou muito fã de Bauhman, Durkheim e Carl Jung também. Acho que de alguma maneira isso influencia até nas composições das músicas.
Pois é, é realmente triste o que aconteceu com o vocalista da Skeletal Remains. Assisti ao show deles em 2024 em Florianópolis e foi brutal. O baterista deles, me fugiu o nome, agora foi muito gente boa. Ele foi educado e atencioso, e trocamos uma conversa muito produtiva. Vocês sempre atacaram sem dó e sem piedade o catolicismo e, especialmente, à entidade máxima o Papa. Inclusive o nome da banda, de certa forma, é um ataque ao Vaticano. A banda sempre usou capas, com uma arte brutal, que remete a doença papal, como um câncer que tem que ser extirpado do mundo contemporâneo. Poderia nos contar quem foi o responsável pela criação da arte deste novo álbum? E outra coisa, o mascote que vocês usam nas capas, vocês já escolheram um nome para ele?
Danilo Wagner: Até pouco tempo eu tinha contato com o Moonroe, com esse aí, ficou complicado. Nós apenas abordamos praticamente toda a crise humanitária, o Vaticano já apoiou o nazismo, incentivou mortes em nome de Deus, atrasou a ciência em séculos com a caça as ditas bruxas, a demonização das culturas pagãs em torno do mundo, enfim, a verdadeira praga é essa maldita religião. Nunca pensamos em dar um nome ao nosso mascote mas a ideia surgiu junto com o nome da banda mesmo, desde o início nós inserimos essa figura que resume claramente o sentido da nossa crítica. Seria uma boa abrir uma enquete para adotar esse nome heim ?!

Eu não queria me desviar do assunto e, na resposta anterior, discutimos sobre a filosofia e a postura da banda. Recentemente, fui entrevistado por um conterrâneo seu de Salvador, Bahia. O nobre guerreiro Hediondo do Folheto Macabro Zine me fez uma pergunta que achei bastante interessante. Ele queria saber minha opinião sobre o Dominionismo, ou a Teologia do Domínio. Uma corrente de pensamento conservador e cristão, bastante usada pela extrema direita atualmente. Esse pensamento defende um Estado mínimo, limitado apenas às funções de segurança e justiça. Num mundo reconstrucionista ideal na visão desses seres escrotos não haveria Estado, e Deus exerceria o poder diretamente em uma teocracia patriarcal. Como tal pensamento (ainda), não é possível o mais próximo seria Deus delegar o poder a representantes cristãos. Isso significaria que eles elegeriam políticos de direita e inclusive juízes da Suprema Corte, com o objetivo de reescrever novas leis e preservar esses princípios cristãos. O que você pensa sobre isso? Se tal filosofia fosse aplicada no Brasil, você acredita que o underground, as bandas de metal e os próprios metalheads seriam, com certeza, perseguidos por essas pessoas extremas, fanáticas e lunáticas?
Danilo Wagner: A Papa Necrose, mesmo que não fique expressamente nítido isso, segue um movimento de críticas a direita, não é nem necessário explicar tanto quando deixamos claro o nosso posicionamento de críticas pesadas ao catolicismo que na minha ótica, é a caricatura mais dominadora do que a direita poderia ser. A igreja católica é dona de um patrimônio inimaginável, eu já disse muitas vezes, se o Vaticano quisesse acabar com a fome, só com as sobras deles já o teria feito. No Brasil existe um fenômeno muito enraizado que é a corrupção institucional, quem conhece de história sabe que a religião é a maior responsável em corromper culturas, segmentos artísticos e sociais, então está inserida nisso. Aliado a isso, os políticos que enxergam a política como um baú de tesouro, disseminam mentiras, principalmente no governo “bolsoasno” que utilizou da mesma estratégia política de Trump para conseguir chegar onde chegou, aliado a uma educação onde não se ensina política e sociologia devidamente, temos hoje uma miscelânea de absurdos no congresso. Cada um tem sua posição política, mas o Papa Necrose é de esquerda.
Você não tem receio de ser criticado ou cancelado por assumir publicamente que a Papa Necrose tem uma postura de esquerda? Vejo alguns “metaleiros” que usam um discurso simplista, afirmando que metal e política não se misturam. Na minha humilde opinião, isso é um absurdo! Se o indivíduo usa uma camiseta preta com um pentagrama ou uma camiseta do Mercyful Fate, por exemplo, além de ter tatuagens e gostar de metal, ela está, de certa forma, marcando seu território e dizendo visualmente que não concorda com o status quo estabelecido por uma sociedade hipócrita e conservadora, não é mesmo? Acredito que todos nós temos críticas a fazer a políticos, independentemente de serem de esquerda ou da direita. No entanto, o Rock e o Metal sempre se colocaram ao lado dos oprimidos. Portanto, se tivermos que escolher um lado, estaremos do lado esquerdo da força. Você concorda?
Danilo Wagner: Medo nenhum, na verdade nós não estamos aqui pra criar nenhum partido político, o público tem uma capacidade cognitiva de entender o conteúdo da nossa letra, mas se perdermos algum fã por isso, sabemos que infelizmente ainda tem muita gente sem capacidade de interpretação, é tipo o fã do Pink Floyd que reclama da postura de Waters por ser de esquerda, não entenderam as letras até hoje? Não é possível. Deixando claro que não somos uma banda que tem isso como papel principal, nosso partido é o death metal. Assim como a religião, a direita se apropria de movimentos culturais, mas quem tem o mínimo de cognição sabe que somos um movimento naturalmente de esquerda, a origem da revolta vem disso.
No primeiro Full álbum, The Souls Collector Vatican, vocês formaram uma parceria com o selo chinês Awakening Records. Se não estou enganado, todos os trabalhos oficiais desde então foram lançados por eles, correto? Vocês estão satisfeitos com o trabalho deles? Como funciona essa parceria em relação a business e divulgação?
Danilo Wagner: Na verdade só conseguimos com a Awakening Records no Anthropomorphy Execution. O The Soul Collector Vatican, nós lançamos através de uma parceria entre selos: Blasphemic Art, Cossoco Records, Thundergod Recs do nosso amigo Vladmir (Malefactor), Rex Inferis (meu zine) e conseguimos distribuir nacionalmente. O The Infected Fucking Church foi lançado com a conceituada My Dark Desires do Léo. Tivemos alguns lançamentos de demo e ep anteriores com a Balrogh Recs. (perdão aos que esqueci de citar).
Pois é, cara, eu acabei esquecendo que o Full álbum da Papa Necrose foi lançado por meio de uma parceria entre selos. Na verdade, eu fiz algumas trocas na época com o amigo Maurício Silva, do selo gaúcho Blasphemic Art. Aproveitando o gancho, como você analisa hoje os primeiros trabalhos lançados antes do Full álbum Driven to Evil (demo tape de 2014), The Tortuous Path (demo tape de 2015) e o split Culto a Morte de 2016, em parceria com a banda Disformes (PI)?
Danilo Wagner: Sempre tivemos uma atenção para entregar uma qualidade para quem nos escuta. No início era bem mais complicado porque não conhecíamos praticamente ninguém, fomos nos inserindo no movimento de maneira gradativa, inclusive tocamos em eventos com banda grunge e essas porras. O contato com nosso guitarrista Carlinhos na época, nos ajudou a entender como as coisas se encaminhavam, até porque Carlinhos já tinha uma bagagem enorme com participações e gravações com bandas consagradas do underground soteropolitano (Sower, Eternal Sacrifice e etc) e foi ele quem nos mostrou alguns estúdios na época. Iniciamos a gravação no Black Home Studio do Moisés ex-Incrust, que não deu bom, perdemos tudo que gravamos. Daí partimos pra ensaiar e gravar em um estúdio chamado Clã de Rafael, onde gravamos nossa primeira demo. Nos dedicamos para registrar um trabalho sério e com a limitação que tínhamos na época, acho que entregamos uma boa gravação (demo Driven to Evil). Em “The Tortuous Path” nós já havíamos tocado em alguns eventos de metal extremo, gravamos no SD Studio de Sidney e já entregamos um material mais maduro que a demo, conseguimos lançar ele também em split com a banda Disformes do Piauí e a partir daí a banda passou a ter uma notoriedade maior no nosso circuito. Esse material era para ser um 3 way split com a Disformes e a Death Invoker do Perú, porém a banda dos caras não conseguiu gravar em tempo hábil para o material ser lançado. A idéia foi através dos selos para conseguir alcançar um público além da Bahia.
Na primeira demo tape, Driven to Evil, vocês mesclaram músicas em português e em inglês, apesar do título do trabalho estar em inglês. O que os levou a escolher esse formato? E por que decidiram adotar o inglês de forma definitiva nas decomposições da banda?
Danilo Wagner: Tentamos inserir as músicas em Português, mas nunca ficaram na métrica que desejávamos, pelo menos pra mim sempre soava mais forte as músicas em inglês, digo no sentido do vocal mesmo, a maneira que as terminações do inglês facilitam os trechos das letras acaba sendo mais confortável. Óbvio que adoramos as músicas em português, a idéia da música já fica alí, na lata, claro e direto, porém como o death metal é muito exigente, acabamos compondo e escrevendo com as músicas em inglês. Mas bandas como Cemitério e muitas das tradicionais de Heavy em Português, admiramos e apoiamos.Claro que no final das contas, também nos facilita para o mercado internacional, já que lançamos por uma gravadora da China e a distribuição lá fora está sendo difundida.
Eu conheci a banda Papa Necrose por meio do split Culto a Morte, com a banda Disformes. Como rolou essa parceria?
Danilo Wagner: Esse material era pra ser um 3 way split com a Disformes e a Death Invoker do Perú, porém a banda dos caras não conseguiram gravar em tempo hábil para o material ser lançado. A idéia foi através dos selos para conseguir alcançar um público além da Bahia.
Acredito que todos os integrantes da banda estão bastante satisfeitos com toda a trajetória até aqui, não é mesmo? Afinal de contas, é uma banda do nordeste do Brasil e da classe trabalhadora que conseguiu chegar ao seu quarto lançamento, e todos os materiais lançados com o apoio de um selo. Isso é para poucos. Com certeza, ter a participação de uma lenda do death metal mundial, com passagens em grandes bandas como Death, Obituary e Cancer, em um álbum seu, é uma conquista. Como rolou o contato e o convite para o James Murphy participar com um solo no novo disco? Quem decidiu que a faixa escolhida seria Thousand Yard Gaze?
Danilo Wagner: Sempre foi muito trabalho de um conjunto de, literalmente, batalhadores do underground, nos consideramos operários do metal porquê é trabalhoso mesmo e participamos de todo processo, desde a escolha do artista para as capas, até o design do encarte. Temos um capricho necessário para que o nosso movimento receba a qualidade que nossa cultura apresenta de potencial e queremos cada vez mais, entregar isso, não diferente, o nosso último álbum teve todo esse tratamento. O contato com James Murphy foi da maneira mais espontânea possível pois através do contato do nosso vocalista com a companheira do James Murphy pelo Instagram, foi possível a apresentação do nosso trampo e a incrível humildade e cordialidade de quem pavimentou um estilo mundialmente, se dispôs a participar por um simples convite que fizemos. Muitos acham que pagamos uma fortuna para essa parceria acontecer, mas tivemos apenas que colaborar com um período de gravação do James em um estúdio porque na época, tinha ocorrido uma tempestade na Flórida que acometeu o material do home studio do James e ele precisou utilizar o Studio de um amigo dele. No final das contas pagamos a bagatela de mais ou menos uns 300 contos pra ele gravar e tivemos algo que ficará registrado eternamente em nosso álbum e corações. Mais uma prova que o metal não tem barreiras e que existe sim, uma irmandade maior em uma escala mundial no nosso meio. Foi e ainda é, um acontecimento que nos emociona muito. Ficávamos escutando os solos dele direto, pagando pau mesmo, quem nos conhece sabe como somos fãs do Obituary e principalmente o clássico Cause of Death. É algo surreal imaginar que temos um solo do gênio James Murphy no Anthropomorphy Execution.

Anthropomorphy Execution é o quarto trabalho oficial da banda. Além disso, vocês têm duas fitas-demo e um split. A banda continua fiel à proposta de executar o velho e clássico death metal, inspirado na sonoridade dos anos 1990. Olhando para o início da trajetória da banda no submundo, o que você acredita que melhorou? O que continua igual, e poderia melhorar/evoluir no underground brasileiro?
Danilo Wagner: É uma pergunta que infelizmente sempre terá uma resposta parecida, independente da banda que você faça a entrevista, o Brasil sofre muito com os inúmeros impostos, taxas e a maldita eterna Inflação. Tudo aqui é mais difícil e se tratando de um país que sofre com uma logística parecida com um continente, temos aqui uma rebarba do que o Rock consegue entregar aos seus fãs de qualidade. Temos que nos virar no 666 pra entregar algo que pra muitas bandas é um fator comum lá fora, pra muitas bandas do exterior (Europa principalmente) é óbvio que uma banda tem que ter um álbum bem produzido, é óbvio que tem que vender e ter lucro, é óbvio que sua arte será difundida se tem qualidade e vai rodar todo o país tocando, porém no Brasil tudo isso é difícil, custoso, complicado e sofrido. Sofremos uma segregação silenciosa quanto ao metal nordestino, daí vai encurtando mais ainda a estrada quando se trata de Bahia e depois, Salvador. Não temos mais eventos de bandas de fora, parece que os produtores quando trazem bandas de outros estados só enxergam os medalhões daqui, por conta disso nós mesmos fazemos nosso evento e damos preferência as bandas que mais sofrem com isso, sem oportunidade de se apresentar em um som digno. Os absurdos que acontecem por aqui são de cair o queixo, muitos produtores safados, rip offs e outros que acham que estão fazendo um favor para sua banda por chamar para tocar sem dar o mínimo de condições pra isso. São coisas que desanimam. Eu tenho vontade de apontar cada um desses, mas vou evitar as fofocas futuras com invenções com nosso nome, porque aqui e em muitos lugares, existe um clube da fofoca no Underground com pessoas fracassadas que tentam atrasar o lado da própria “cena”. Referente a evolução da banda, sempre foi algo que buscamos, desde a demo. Hoje temos que ter um certo cuidado para o som não acabar descaracterizado pela questão do nível técnico. Continuamos fazendo death metal tradicional só que usamos nossas referências antigas e atuais. Escutamos muita coisa contemporânea a nós, pois somos ávidos pesquisadores do metal e usamos muita influência atual também. Eu (Danilo) tenho escutado com frequência Dripping, Peelingflesh, Epicardiectomy, Sanguissugabog, etc. Acredito que uma forma de melhorar é a criação de um coletivo através de editais e seletivas, com uma frequência boa, pudéssemos diluir os custos pra trazer bandas de outros estados e países, inserir bandas novas dando oportunidade, uma movimentação onde o headbanger se sentisse acolhido nesse meio, acabando com um estigma idiota que foi criado pelos mais antigos, criando uma atmosfera de desconfiança e medo de frequentar eventos e por outro lado a participação desse público, com consumo de materiais físicos, apoio as bandas. É um conjunto de coisas para mudar e dar notoriedade a nossa tribo, deixar de lado as síndromes de protagonismo que existem aqui.
É verdade, infelizmente as panelinhas sempre estiveram presentes no submundo. O underground, lá no início dos anos 1980, 1990 e início dos anos 2000, as coisas eram realmente muito difíceis, especificamente falando de Brasil. Um fã de heavy metal ou um músico/metal precisava realizar uma verdadeira busca arqueológica no underground para ter acesso a discos e instrumentos musicais. Embora fosse difícil, essa busca também proporcionava muita satisfação. Atualmente, vivemos em uma época em que tudo está ao nosso alcance. Já passamos a era do MP3 e hoje as plataformas de streaming são uma realidade, assim como a inteligência artificial. Como artista, como você analisa o uso da IA na música pesada, bandas que utilizam essa tecnologia para criar suas capas e, pior ainda, gravando álbuns e músicas com IA?
Danilo Wagner: Sabíamos que isso aconteceria. O mesmo cara que copiava um material e imprimia a capa colorida de um álbum para dizer que era original e mentir pra si mesmo, são os que utilizam dos artifícios tecnológicos hoje de maneira descontrolada, sem trato nenhum e com a responsabilidade de quem tem uma Ferrari na mão mas não sabe dirigir. A tecnologia tem que ser acessível mesmo, tem que chegar a todos, mas quem a consome tem que entender o papel do artista nesse processo. É nítido que uma IA não vai executar a originalidade que um bom compositor cria uma música, existem fatores externos que influenciam o processo de criação, uma perda, uma conquista, uma raiva sobre o que ocorreu com o cara, a IA não vai mensurar isso. Se o headbanger acha que isso são fatores que não importa, ele está absurdamente limitado emocionalmente e intelectualmente falando, uma banda leva várias artes juntas em um produto apenas, arte cênica, música, artes plásticas, cinematográfica e tudo que o artista se propõe a passar, tudo isso tem um sentido para o artista e um valor sentimental, se o público prefere que um computador substitua tudo isso, devemos agradecer em perder esse ouvinte. (porque ele só é isso, ouvinte).
Todo headbanger que habita o submundo e consome a cultura underground sabe que “a cena” conta com diversos mecanismos para fazer a roda girar. Ou seja: há o músico, produtor musical, produtor de eventos, studio de gravação e ensaio, um selo ou gravadora, uma distro, e também tem um fanzineiro. Na minha modesta opinião, um zine registra o que está rolando nos bueiros do underground, longe das revistas coloridas e sites de fofoca sobre metal. Que estão só em busca de likes e visualizações. Hoje os zines estão presentes, cumprindo sua função divulgando bandas obscuras e pouco conhecidas e sem rabo preso! Qual é a sua opinião sobre os fanzines impressos atualmente? Você acredita que eles ainda têm relevância na cena? Você continua consumindo esse tipo de artefato e quais têm despertado seu interesse e merecido seu apoio?
Danilo Wagner: Acho que o fanzine impresso ainda tem uma importância enorme dentro da cena, justamente porque ele carrega algo que a dinâmica digital dificilmente consegue reproduzir: a materialidade, a memória e a identidade do underground. Quem está envolvido com metal extremo há algum tempo sabe que a cena nunca foi construída apenas pelas bandas. Existe toda uma engrenagem funcionando por trás: músicos, produtores, selos, distros, estúdios, produtores de eventos, colecionadores e, claro, os zineiros. O fanzine sempre ocupou um espaço muito particular nesse ecossistema, porque não está necessariamente preocupado com números, algoritmos, alcance ou com aquilo que está em evidência. Ele vai atrás do que está escondido.
Uma entrevista impressa com uma banda de Death, Black, Doom, Grind ou qualquer vertente extrema de uma determinada época acaba se tornando um registro histórico da cena. Daqui a dez, vinte ou trinta anos, aquele pedaço de papel pode contar muito mais sobre determinado momento do underground do que inúmeras publicações digitais que desapareceram no fluxo interminável das redes sociais. Você também é um editor de fanzine, o Rex Inferis Zine. Se não me falha a memória, foram lançadas duas edições. Tenho ambas na minha coleção. Ele está adormecido ou realmente você o sepultou por definitivo?
Danilo Wagner: O Rex Inferis está pausado faz um tempo infelizmente, tive grandes dificuldades com a impressão, tanto pela falta de opções para impressão como também referente ao preço dos locais que eu consegui encontrar para fazer, agora pra acabar de fuder com tudo eu não estou conseguindo encontrar o arquivo da terceira edição do zine. Já procurei essa porra em tudo que é e-mail e HD e não consigo achar. O zine todo pronto com entrevistas exclusivas com bandas que acredito ser muito difícil conseguir novamente. Isso já me deu tanta dor de cabeça que preferi deixar de lado. Perdi a entrevista com Gruesome, Anatomia entre outras.
Estamos chegando ao final deste bate-papo. Danilo, se não estou enganado, você residiu por alguns meses no sul do Brasil, na cidade de Ponta Grossa, no Paraná. Como foi sua experiência por lá e o que você achou das pessoas daqui do sul do Brasil? Você já teve a oportunidade de conhecer a cena underground do Paraná? Você possui contatos com bandas do sul do Brasil? Quais delas você admira e apoia?
Danilo Wagner: Minha passagem pelo sul não foi tão longa ( apenas 1 ano e 6 meses) e isso acabou que me limitou muito quanto a conhecer mais profundo. A cidade onde eu estava era muito comum shows de bandas covers (não me interessa). Quando eu fui em Curitiba eu tive contato direto com meu irmão Tersis (Lutemkrat) do grande Offal, onde trocamos várias idéias e tomamos umas brejas. Uma vez eu peguei um evento mais Underground em Ponta Grossa (PR) com os caras da banda Cabra Negra e foi muito foda, os caras mandam muito bem, foi o único show que consegui pegar de banda autoral que de verdade chamou minha atenção, joguei um sinuca com o vocal/guitarra apostado um isqueiro e ganhei, os caras são ultra gente fina. Ponta Grossa é uma cidade com potencial para eventos autorais, mas infelizmente dão atenção apenas às bandas covers. Para mim é um desperdício de estrutura, lá tem excelentes pubs e bem equipados. Espero um dia passar com o Papa Necrose pelo Paraná e Estados próximos, quero muito visitar meus amigos do sul e tomar umas com os irmãos do Movarbru, Old Graves entre outras.
O Tersis(Lutemkrat) é um grande amigo. Movarbru tenho vários materiais deles e já fui em vários shows da Movarbru que são sempre infernais! Meu amigo, quais são os planos futuros do Papa Necrose? Aproveite também deixe suas considerações finais. Um abraço e força – sempre!
Danilo Wagner: Os caras são verdadeiros irmãos do Underground. O Fábio do Movarbru é um grande apoiador nosso e sempre conversamos sobre o interesse em tocar em terras gaúchas, em breve rola. A banda está buscando produtores compromissados que nos levem para os giros pelo país, acredito que até o ano que vem vamos conseguir promover uma turnê de divulgação do nosso disco pelo país e proliferar o death metal podre e corrosivo que a terra sem salvação tem pra oferecer. Estamos finalizando junto com os irmãos do Catacumba de Espírito Santo, o registro profissional em multi pista da nossa apresentação no Retorno dos Hereges 2 – Tumbas Impuras que será mais um excelente trabalho de imagem que teremos no nosso portfólio. Obrigado Waltinho pela entrevista e paciência de aguardar tanto as respostas, estou numa rotina fodida de dois empregos e o pouco tempo que sobra de alma nós nos desembolamos com as demandas da banda. Forte abraço a todo nosso público e continuem consumindo materiais físicos de bandas extremas. Stay UNDERGROUND!!!!