
Nem só de bandas e músicos vive o Underground. Existem outras pessoas fazendo a roda girar por traz dos bastidores. Muitas vezes elas fazem isso pelo simples fato de gostar deste universo metálico e fazem pela paixão, sem pensar em retorno financeiro. Fomos conversar com o grande amigo e batalhador da cena Underground, André Chaves, um ferrenho admirador das escritas do Underground e editor do grandioso e respeitado fanzine Sepulchral Voice Zine entre outros artefatos impressos.

Maléficas saudações, André! Seja bem-vindo ao portal The Old Coffin Spirit Zine. Para iniciarmos esse bate-papo, gostaria de saber como você descobriu o Heavy Metal e o que mudou na sua vida depois desse primeiro contato?
André Chaves – Hailz, Walter! É uma grande satisfação poder falar do Sepulchral Voice Fanzine e também um pouco da minha vivência no Underground. Vocês fazem um excelente trabalho com o The Old Coffin Spirit Zine, de modo que é uma honra poder trocar ideia com vocês e dividir um pouco dessa história. Cara, um leve empurrão foi da minha mãe, que é fã de Elvis, e um dia me falou que gostava também de Raul Seixas. Com uns 13 anos, fui a uma quitanda na esquina de minha casa e comprei uma fita cassete intitulada “Maluco Beleza”. Depois disso, quando estava numa feira, comprei a cassete “A Real Dead One”, do Maiden, aí bateu de verdade. Podemos dizer que aquilo mudou minha vida! Encontrei um amigo da escola que também gostava de Maiden, então, aos poucos, fomos formando uma pequena turma. Conheci dois caras um pouco mais velhos, apelidados de Bilu e Cavalo, que gravaram para mim o “Loco Live” e um outro disco que também mexeu muito comigo. Lembro que eles iam trabalhar na safra de laranja e, aos sábados, compravam alguns cds. A partir daí, comecei a correr atrás para conhecer mais. Fazíamos uma verdadeira peregrinação pela cidade, batendo na porta das casas de bangers e punks para pedir discos emprestados ou para que gravassem os materiais para a gente. Mas quem atenderia um monte moleques num domingo bem cedinho (risos). Logo, comecei a me corresponder via cartas, comprar e trocar tapes. Foi assim que comecei a mergulhar cada vez mais no universo do Heavy Metal!
Pois é, cara, parece que todo Metalhead que iniciou sua trajetória no Underground nos anos 1980 e 1990 tem quase a mesma história para contar. Principalmente nós, que morávamos “longe demais das capitais”. É a velha história de conhecer pessoas que já estavam inseridas no cenário e ter que provar que você merecia fazer parte daquele círculo fechado. Você é do interior paulista, né? Como era o cenário na sua cidade e região na época em relação a shows, bares e bandas?
André – Quando comentei na questão anterior que íamos atrás de som, a maioria da galera não curtia muito dar atenção para a molecada. Fazia parte da iniciação ter que encarar o radicalismo dos mais velhos, né? (risos). Sim, cara, sempre morei no interior paulista. Boa parte da minha infância e adolescência foi na cidade de Itápolis, onde tinha uma galera bem envolvida com o Underground. Meu primeiro show de Metal foi em 1997. Eu e um amigo, com uns 15 ou 16 anos, saímos de Itápolis sozinhos para Araraquara/SP a fim de ver o Paul Di’Anno. Para você ter uma ideia de como era a cena na minha cidade, eu peguei um show em Itápolis apenas em meados de 1999 ou 2000, quando eu já não morava mais lá. Mudei-me para Vera Cruz, cidade quase “grudada” a Marília. Foi lá que tive acesso a uma loja de discos. Não era tão completa quanto as lojas das capitais, mas dava para conhecer muitas bandas, e, claro, fazer amizades. Em Marília, a cena não era tão movimentada como, por exemplo, na cidade de Bauru. Teve um período em que havia um bar que rolou vários festivais legais, mas durou pouco tempo. Cheguei a organizar um fest em Vera Cruz em 2000, e tinha também um colega que fazia alguns eventos em Marília. Foi um período em que tive que passar muitas noites em rodoviárias, pois o jeito era ir conferir os eventos que aconteciam nas cidades da região. Tempos atrás, fui a um churrasco no qual conheci um camarada que me contou ter precisado esperar 15 anos para conseguir ouvir “Altars of Madness”. Nas palavras dele: “no interior era foda encontrar bandas nesse estilo”. Nessa época morar no interior era muito mais complicado? Claro que era! Mas tinha que correr atrás, para conseguir ter acesso a novos sons, eu trocava muita gravação em cassete. Atualmente resido em Piraju, outra cidade pequena. Aqui rolava um evento foda chamado umf, que infelizmente não acontece mais. E tem uma banda que faço questão de recomendar, a Lábar’Oculto. Quem não conhece, ouça!
É incrível que nas capitais a galera se reunia em lojas de discos como Cogumelo Records, em Belo Horizonte (MG), enquanto em São Paulo, por exemplo, tinha, e ainda tem, a Galeria do Rock. Nas cidades de médio porte o pessoal também se reunia em lojas para ter acesso a discos, interagir e fazer amizades. Em Foz do Iguaçu (PR), nós tínhamos a Musical Express e o Underground Pub & loja. Como você vê o cenário hoje que a nova geração não tem esse contato que nós tivemos? Nos últimos quinze anos, por exemplo, mudou muito a cena Underground. Em cidades de pequeno porte não tem mais lojas de discos nem locadora de dvd.
André: Nas cidades pequenas do interior, onde morei, lojas de discos dedicadas ao Metal/Rock simplesmente não existiam. Esse tipo de loja era mais comum nas cidades maiores. Só em Marília, que já é uma cidade de médio-grande porte, fui ter acesso a uma loja de Rock, que no caso é a London Loop, a qual até hoje está em funcionamento. As lojas de discos eram fantásticas, quer dizer, ainda são! Hoje algumas também vendem cerveja, então dá para tomar uma breja, bater um papo e adquirir uns materiais. Walter, o mundo sempre esteve em transformação. Com o digital, talvez as mudanças sejam mais rápidas. Eu não posso querer que minhas filhas tenham as mesmas experiências que tive quando mais jovem. Existe uma galera que venera as décadas de 1980 e 1990, mas será que sobreviveria àquela época? (risos) Claro que tenho saudades de muitas coisas dos anos noventa, porém não podemos venerar as dificuldades do século passado. Nas cidades que residi, os bangers e punks se reuniam nas ruas e praças. Minha casa sempre foi um ponto de encontro da turma. As revistas e os zines passavam de mão em mão, o gravador de tape sempre funcionando. Acho que o que aconteceu foi um certo distanciamento. Perdemos a proximidade, e isso faz falta. Existe um certo interesse da nova geração em cds e lps, mas o complicado são os valores e o poder de compra do brasileiro. Temos que nos adaptar, e nós, sul-americanos, temos uma radicalidade mais afiada. Sabendo dosar as coisas, elas funcionam. Cara, eu fazia entrevista por carta! Hoje dá para entrevistar alguém do outro lado do globo rapidinho. A tecnologia mudou muita coisa, no entanto, não precisamos abandonar nossa essência.
Voltando a tua resposta anterior, na qual você citou a banda Lábar’Oculto. Eu tenho o full album deles autointitulado, de 2020. A banda é matadora! Nos anos 2000, você já estava fazendo parte do Underground, não só consumindo materiais, mas querendo fazer parte das engrenagens e fazer a roda girar. Nos fale mais sobre esse fest que você citou? Quais bandas participaram do evento? E como foi essa primeira experiência para você como organizador de um evento?
André – Uma cidade que não tem barzinho ou casa de show é uma luta para organizar um evento desse tipo! Você tem que ir atrás de alvará, cuidar da segurança, da aparelhagem e ainda tomar conta do bar. Já vi eventos em a polícia baixou e mandou parar tudo, pois não haviam conseguido todas as autorizações necessárias. Organizei apenas dois festivais, e digo que foi bem cansativo. Tem que ter tempo para fazer toda a correria! O evento que citei anteriormente foi na cidade de Vera Cruz. Como fazia anos que não tinha nada de Metal na região de Marília, deu um público bem legal, cara! No cartaz tinha várias bandas, mas se apresentaram as banda de Bauru, Spiritual e Infects Humanity; a banda de Tupã, Hecatomic; e a banda de Vera Cruz, Agna. Em 2009, quando morava no Vale do Paraíba, organizei um fest em parceria com a banda Vehement Storm. Foi em Guaratinguetá, e novamente foi a mesma correria: ir atrás de salão, alvará, aparelhagem etc. Nesse evento o cast era formado por Vehement Storm, de Potim; DST e Rectal Collapse, de São José dos Campos; Satanic Tyranny, de Minas Gerais; e Flagelador, do Rio de Janeiro. Os dois eventos foram legais. Na realidade, foram noites para trombar com velhos aliados, tomar umas cervejas e curtir Metal. É cansativo, mas acaba valendo a pena!
Pois é, cara, eu também acredito que, seja na capital ou no interior, é preciso de três coisas para fazer o Underground florescer: Uma banda de Metal, um bar ou loja de discos para o pessoal se reunir, e alguém com vontade de produzir um evento, não visando só o lucro, mas com vontade e paixão para fazer a roda girar. Não vivi os anos 1980, eu comecei a viver o Underground nos anos 1990. Mas o que me chamava atenção era a união entre “essa tribo urbana”, todo mundo unido e fazendo trocas e repassando informações. Talvez por sermos vistos como uma espécie de escória dentro da sociedade isso acabava nos unindo. Todo jovem queria montar uma banda ou, se não tivesse aptidão musical (meu caso), queria de alguma forma fazer parte daquela cena. Alguns editavam fanzines e organizavam shows que eram precários, sim, mas faziam roda girar. Você acha que no mundo contemporâneo, digital, essa coletividade dentro do Underground acabou ou não?
André – A cena precisa de ação para funcionar! Se todo mundo fizer um pouco, as engrenagens não param. Vivo à margem da grande massa há quase 30 anos, e o que temos no Underground é algo impensável para muita gente. Falar para alguém de fora da cena que existem bandas que não ganham grana, que editamos zines sem pensar em lucro, é pedir para sermos taxados de malucos. Acho que está bem diferente. A tecnologia facilitou muito a comunicação, mas também deixou tudo mais individual. A coletividade ainda existe no Underground, sou um otimista. (risos) Mas sair um pouco do digital é necessário!

Sim, cara, a cena Underground precisa sair da esfera digital e viver mais o mundo físico e real. Me lembro que recentemente um amigo me disse: Cara, nos anos 80 e 90 você tinha que estar nas ruas para ver o que estava acontecendo no Underground. Ou seja, era preciso ir aos shows e lugares que o pessoal frequentava. Era ali você descobria quais discos foram lançados e ficava conhecendo bandas obscuras. Já vi gente que está na cena desde o início dos anos 1980 e hoje diz que não acredita em cena e tal. Realmente, estamos no século 21, e que bom que as coisas mudaram. Tudo muda o tempo todo, para o bem ou para mal. Você acredita que o radicalismo ainda funciona no Submundo ou é desnecessário?
André – Bem isso mesmo. Você tinha que ir para as ruas! Quando alguém comprava um cd ou Vinil, a turma se reunia para ouvir ou gravar. Mas tenho conhecidos que continuam ouvindo as mesmas bandas e discos, e mantêm esse discurso de que não existe mais cena. Na realidade, o problema é com ele e não com a cena, né? Radicalismo é necessário! Mas vamos lá: radicalismo não quer dizer extremismo. É manter nossas raízes, sem esquecer que tudo neste mundo é mutável. Não é porque o Metal nos anos 80 se difundiu através da troca de tapes que precisamos manter essa prática para sempre. As ferramentas mudam, e o que noto hoje é que estamos deixando de ser radicais e passando a ser saudosistas. Os fanzines são essenciais para a cena, mas hoje existem outras formas de se propagar informação. Se o camarada está fazendo um trabalho honesto, isso é o que importa!
Exatamente. Concordo com você! O radicalismo consciente precisa para manter aquela tradição de apoio, de pertencimento, de respeito que sempre existiu no Underground e no Metal por quem não habita o mainstream. Radicalismo não é barrar uma molecada nova ou rasgar a camiseta que ele está usando por achar, que por ser jovem, não pode usar a camiseta de uma banda radical dos anos 1980. André, você, que como eu e muitos Metalheads, ainda compra cds, Vinils, K7s e fanzines, o que você acha das plataformas de streaming? Você faz uso delas?
André – Sim, utilizo muito o Spotify no carro, no trabalho e até durante uma caminhada. Gosto muito do Bandcamp também. Não tenho grana para comprar todos os títulos de que gosto, principalmente os importados. É família, responsabilidades, e nem sempre sobra grana para gastar com discos. Claro que, quando posso, estou sempre adquirindo alguma coisa. Não me considero um colecionador, estou bem longe desse estigma. Ainda gosto daquela experiência de chegar em casa, colocar um disco para rodar e ficar fuçando o encarte.
Eu também uso bastante o Spotify e compro meus materiais quando sobra uma grana. Busco realmente comprar o que eu gosto e me chama atenção. André, você já está há muito tempo na labuta no Submundo. Gostaria de saber o que você acha que mudou no Underground do início da sua caminhada neste mundo metálico até o presente? O que você acha que precisa mudar e o que deve continuar igual?
André – Toda essa evolução tecnológica é uma faca de dois gumes. Hoje ficou muito mais fácil conseguir uma boa qualidade de gravação, seja para uma demo ou até de um disco. Muitas bandas produzem seus materiais em Home Studio, e a qualidade dos shows também melhorou bastante. Para os zineiros, impressoras com preços mais acessíveis e gráficas rápidas também facilitaram muito a produção. Assim, pelo menos, você foge do estresse das fotocópias, de pagar uma fortuna e entregarem cópias horríveis. (risos). A facilidade de divulgação é ótima, mas aí vem o lado ruim. Somos bombardeados diariamente por informações de todos os lados. É uma caralhada de lançamentos que não dá para acompanhar.
Acredito que todo mundo que realmente vive e está inserido no Submundo sabe quem é o André Chaves. A partir de agora vamos nos aprofundar na sua história com as escritas subversivas. Por que fazer fanzine em um mundo digital e artificial, onde tudo está ao alcance das mãos ou melhor do smartphone?
André – Mano, não sei se sou tão conhecido assim! (risos) Nos últimos anos tenho andado bem recluso. Acho que o Sepulchral Voice Fanzine construiu um nome legal na cena, independente de quem esteja por trás dele. E, sinceramente, até prefiro assim. Desde que conheci o universo dos Fanzines, fiquei fascinado, e logo senti a necessidade de criar minha própria publicação. Meu primeiro zine foi lançado em 1998, aprendi muito nesse mundo dos fanzines e fiz muitas amizades, amigos que trago até hoje comigo. Praticamente, passei a vida editando zines e já não sei viver sem essa loucura. É uma longa história nesse universo, que começou pela paixão e pelo desejo de propagar o Metal. Passados todos esses anos, o ímpeto permanece inabalável, mas hoje acrescento que também se tornou um ato de resistência. Vamos ser sinceros, parar para ler um livro ou um zine é lutar contra toda essa avalanche de ferramentas digitais e contra os algoritmos. Pretendo continuar editando zines, deixando o papel circular para manter viva essa cultura subversiva.
Meu primeiro contato com o artefato Sepulchral Voice Zine foi com a quarta edição, no qual saiu uma entrevista com a Battalion, banda de Itajaí/SC. Sou amigo deles, que me passaram uma cópia. Também tinha uma entrevista com uma das minhas bandas preferidas de Death Metal nacional, o culto bizarro do Embalmed Souls. Bem, o queria mesmo é que você me dissesse em que ano surgiu o Sepulchral Voice Zine, e quais foram as dificuldades para a primeira edição ganhar vida?
André – Poxa, então já faz um tempinho que você conhece o zine. Embalmed Souls é um dos grandes nomes do Metal da Morte brasileiro, uma das poucas bandas que podemos afirmar que se mantém longe das tendências da moda! Você me apresentou a Nightrider, novo projeto do Marcelo (ex-Battalion). Os sons que estão nas plataformas estão foda pra caralho! Agora, fico aguardando o debut álbum. Quando resolvi criar o Sepulchral Voice, já possuía experiência com outros fanzines. Então, já fazia uma ideia de como seria o artefato. A dificuldade nesse início era conseguir um horário para escapar do trabalho e “xerocar” o zine, além de encontrar um estabelecimento que oferecesse cópias de qualidade, o que era uma verdadeira maratona. Nas edições #02 e #03, consegui uma empresa que imprimia o zine digital, com uma qualidade bem legal e preço acessível. E as coisas começaram a fluir melhor. Para a quarta e a quinta edição, eu usava uma impressora a laser que tive. Na sexta edição, cheguei a alugar uma impressora por um tempo.
No Brasil, infelizmente, sabemos que não é fácil produzir cultura alternativa, principalmente se for Heavy Metal, ficando mais difícil ainda se for em um nicho voltado à cultura extrema. Ao longo de sua trajetória com o Sepulchral Voice Zine quantas edições foram lançadas? E como é o processo seletivo que você usa para escolher quais bandas participarão de uma edição do fanzine?
André – Nem lamento isso, pois faz parte de vivermos à margem da grande população. Algumas culturas alternativas ainda têm algum respaldo, mas o Heavy Metal não é bem-visto pela grande mídia, nem desperta o mesmo interesse acadêmico que ocorre com outras vertentes do rock. Eu não me importo, para ser sincero. O Sepulchral Voice Zine, nesses 19 anos, tem 12 edições lançadas e seguimos trabalhando na décima terceira.
Dezenove anos e 12 edições diz muito do vosso trabalho e do respeito do Sepulchral Voice Zine no Submundo. Com essa bagagem, e toda essa história, me diz uma coisa: Qual ou quais entrevistas que você mais gostou de fazer? E teve alguma banda que você entrevistou e pensou: Não acredito que estou entrevistando essa banda e que vou tê-la no meu fanzine?
André – Walter, é difícil destacar uma entrevista em especial, porque cada uma tem seu valor. Já entrevistei bandas que admiro há muitos anos, e muitas novatas que me surpreenderam pela ideia e pelo papo desenrolado. Desde o início, sigo a própria ideia do fanzine, como a nomenclatura sugere, “fan + magazine”. Não me canso de repetir que é um trabalho de fã para fã. A partir desse princípio, toda banda que entrevisto ou matéria que elaboro eu curto. Eu não sou jornalista, sou headbanger! Não tem por que fazer resenhas destrutivas, como algumas revistas faziam no passado. Hoje, com as redes sociais, o que mais encontramos são críticas e reclamações, então não vejo sentido em levar isso para o fanzine. Sinceramente, é complicado demais destacar algo. Ao pensar nas doze edições, vejo que cada entrevista, boa ou ruim, soma para construir a história do Sepulchral Voice Zine.
Também não resenho ou escrevo matérias sobre bandas de que eu não gosto! Até porque também não sou jornalista, muito menos músico. Eu tenho que gostar da banda, do material lançado. E tem outra coisa, não me interesso por banda que diz ter 25 anos de história, mas que, de fato, ficou 5 anos na ativa, tendo ficado 20 anos fora, para retornar com essa história de banda antiga de cena. Eu só entrevisto bandas que estão na ativa e que vivem realmente o Submundo. Dito isso, queria saber se teve alguma banda em que a entrevista foi um banho de água fria ou se você ficou decepcionado com alguma banda/músico?
André – Cara, o que tem aparecido na cena é isso, né? Banda comemora três décadas, mas, na realidade, não teve nem dez anos de atividade. O velho conto do vigário. (risos). Vou contar um “causo”, mas sem citar a banda gringa. Quando anunciei o lançamento da edição, que tinha uma entrevista com eles, o cara mandava mensagem quase toda semana perguntando se já havia postado. E você que é zineiro sabe bem que nas primeiras semanas o negócio pesa no bolso, e as postagens internacionais são salgadas. Passado uns dias, postei. Para “ajudar” o zine ficou no sistema como restrito na alfândega. Um tempo depois, lembrei e pesquisei o rastreamento e ainda constava como retido. Mandei um e-mail falando para ele entrar em contato com os Correios, porque tinha alguma coisa estranha. Porra, o cara me responde que estava com o zine em mãos! Encheu o meu saco e no final nem para acusar recebimento. Toda edição tem banda que aceita a entrevista e simplesmente desaparece do mapa. E, mano, é decepcionante pra caralho isso aí!
Eu até agora não tive esse problema, felizmente. Todas as bandas que eu contatei responderam tranquilamente e muito rápido! E o que você acha de bandas que participam do zine e receberam uma cópia física e não divulgam na página da banda ou mesmo nos perfis dos integrantes?
André – Sorte sua, bro! Em conversas com outros zineiros, isso tem acontecido com muita frequência. Ninguém é obrigado a divulgar, né? Mas tem uma entrevista com a banda, seria interessante tanto para eles como para o zine. Acho que pelo menos acusar o recebimento. Isso é o mínimo. Eu ainda envio um exemplar para cada entrevistado, mas essa prática não é adotada por todos os zineiros.
Na verdade, só tive problema uma vez com “uma banda aqui do Sul que são amigos meus”. Eu os entrevistei e eles não divulgaram. É a banda menos acessada no site The Old Coffin Spirit e nunca mais divulgo nada deles! Acho uma falta de respeito com o nosso trabalho. Mas se sai uma nota de um cartaz de um show na Roadie Crew em que aparece o nome das bandas quase escondido, daí compartilham com todo mundo. E como funciona para você resenhar os materiais (cds, Demo Tape)?
André – Quando penso em entrevistar alguém, é porque curto o trabalho e todo conteúdo por trás. Mas é aquilo, ninguém é obrigado a divulgar nada. Quando o site do SVZ era bem mais ativo, escrevia notas e postava cartazes diariamente. Às vezes, via algo nas redes e elaborava uma news antes mesmo de muitos canais. E isso era meio comum, as bandas não compartilharem nossos links, mas compartilharem os de outros portais. Faz parte, cada um divulga o que quiser e ninguém é obrigado a nada. Mas tem aquilo, somos um pequeno fanzine, não somos nenhum medalhão da cena, né? (risos) Mas, na moral, minha parte eu fiz! Resenho o que gosto. Às vezes recebo material de bandas e selos, mas também tem material que compro. Quando algum selo ou banda manda material e não é algo que gosto, pergunto para a galera que está comigo na edição se alguém se interessa. Se ninguém se interessar, simplesmente não sai na edição.
A partir da sétima edição mudou o formato do Sepulchral Voice Zine. Você o fazia em fotocópia e passou para algo mais profissional, feito em gráfica. O novo formato realmente ficou muito bom! Porém sem perder a característica de um fanzine do Underground e para o Underground, e, o mais importante, com conteúdo que sempre acrescenta conhecimento para o leitor. Por que você saiu da tradicional fotocópia e optou por fazer o zine em gráfica? E como o público Metalhead aceitou essa mudança?
André – Valeu pelas palavras, meu chapa! Então, existe um hiato entre a sexta e a sétima edição, pois passava por um momento turbulento na vida pessoal. Mas o zine continuou ativo no digital, com o site, como comentei na questão anterior. Na correria, não conseguia editar uma edição física, mas nesse período conseguia fazer postagens no site em alguns momentos de folga no trabalho. E quando comecei a trabalhar na sétima edição, fiquei na dúvida entre comprar uma nova impressora ou alugar. Aí me lembrei de vários fanzines de quadrinhos, que eram impressos em gráficas e nem por isso deixavam de ser Underground. Então optei pelo formato livro! Apesar da impressão em gráfica, ele ainda tem o visual, o espírito de fanzine, com o conteúdo subversivo! Sim, a aceitação foi bem legal. Me surpreendi com isso para falar a verdade.
Acredito que a grande maioria dos editores de fanzine começaram suas trajetórias no Submundo no século passado. Ou seja, provavelmente nos anos 1980 e 1990, mas com certeza tem gente mais nova levantando a bandeira e mantendo a resistência. E com certeza ainda consome mídias físicas, comprando cds, Vinis, K7 e fanzines. Editar um fanzine hoje em dia é, sem dúvida, um ato de resistência. Você acredita que um site e um fanzine possam conviver juntos divulgando e trabalhando no Underground?
André – Com o Fanzine Escrituras do Submundo, tenho notado que existe um pessoal mais jovem chegando ao universo dos zines, mas a maioria ainda é formada pelos antigões.Editar um fanzine sempre foi um ato de resistência, independente da época! Somos marginais, vivemos longe da grande mídia e sem amarras das publicações comerciais. Quando eu era moleque, me recordo que alguns zines punks traziam mensagens contra a alienação da televisão. Mas as redes sociais elevaram isso a um nível Die Hard. Atualmente, o fato de simplesmente tirar alguém por alguns minutos do digital e induzir à leitura é um ato de rebeldia. No meio de tanta informação, das infinitas timelines dos smartphones, ainda existe espaço para o papel. Talvez seja justamente por isso que o fanzine continue resistindo. E sobre fanzines e sites, tem espaço para todos. Um não mata o outro! Estou aqui neste bate-papo justamente porque reconheço a importância do trabalho de vocês e o quanto fazem pelo Underground, seja no digital ou no impresso.
Você é uma pessoa que não para, né? Recentemente você criou mais um artefato de resistência, que, dessa vez, se concentra em editores de fanzine. Como surgiu o Escritura do Submundo Zine? E de que modo surgiu a ideia de enfocar o editor/redator de fanzine?
André – Melhor gastar o tempo produzindo do que ser engolido pelo feed infinito das redes. Sempre desejei elaborar um trabalho sobre zines, mas não sabia o que desenvolver. Na 11ª edição do Sepulchral Voice, entrevistei o Elton Lima, responsável pelo Manifesto em Fúria Zine, que editou no passado o cult Visão Underground Zine. Dessa entrevista saiu a ideia de criar o Escrituras do Submundo. O projeto acabou ganhando força com o apoio do Lúcio Medeiros e Mário Tenebrarum, que ajudaram para a ideia sair da gaveta. Criar e distribuir um fanzine nunca foi tarefa fácil. Como escrevi no editorial da primeira edição do Escrituras, os zineiros muitas vezes acabam ficando em segundo plano. O Fanzine Escrituras do Submundo nasceu para dar espaço para os malucos que estão nesse universo, que escrevem, diagramam, “xerocam” e encaram fila nos Correios. É uma publicação para quem continua acreditando no faça-você-mesmo e na literatura marginal. E esses papos rendem demais, zineiro responde rápido, por isso já estou trabalhando na sexta edição. Um ritmo desenfreado.
Sim, o Elton Lima é um amigo de muito tempo, além de ser um grande batalhador do cenário! Aproveitando que você citou algumas figuras importantes do cenário Underground como o amigo Mário Tenebrarum e o Lúcio Medeiros, o Underground sempre teve o lema de apoio e parceria. Nos últimos anos, tenho notado que muitos editores têm contado com uma rede de apoio e ajuda de colaboradores na elaboração de um fanzine. O Sepulchral Voice Zine tem contado cada vez mais com “essa ajuda” e, na última edição (#12), foram muitas. Por que você abriu essa parceira e como surgiu esse convite para algumas figuras importantes do cenário Underground fazerem parte da staff do SVZ?
André – Desde a primeira edição o Sepulchral Voice Zine conta com colaboradores, ou melhor, amigos que convido para escrever. Para mim, um fanzine nunca é feito por uma única pessoa. A coletividade faz parte de quem sobrevive no Submundo! Então, a ideia é sempre se juntar a quem está na mesma sintonia. Os colaboradores são justamente aqueles que têm uma linha de pensamento parecida com a minha, aliados que entendem a proposta do zine. E isso também ocorre em outros zines que elaboro. Até comentei recentemente em outra entrevista, que o fato do zine ser no formato livro acaba fazendo algumas pessoas fantasiarem um pouco. Já recebi currículos, gente se oferecendo para fazer freela e outras coisas do tipo. A impressão é “profissional”, mas o conteúdo continua sendo marginal.
Na edição #12 do SVZ (tem resenha aqui no site, inclusive) essa rede de colaboradores agregou muito para o conteúdo textual e, na minha opinião, a cada edição do artefato lançado ele vem evoluindo, seja na parte de diagramação, artwork extremamente de bom gosto e entrevistas muitos legais com bandas, o que não se encontra em sites de fofocas e “revistas coloridinhas” com foco no mainstream. Por exemplo, achei muito interessante sua parceria nesta última edição com o Sérgio Baloff Borges (Headhunter DC). Vocês dois fizeram ótimas entrevistas com as lendas Sadistic Intent, Mortem (Peru) e Pentacle. Você imaginava contar com essas lendas do Death Old School Metal mundial em uma edição do vosso zine? Aliás, vale ressaltar, e também dar os créditos para Sérgio W. de Vilhena, que fez uma ótima entrevista com Marc Grewe, a lenda por trás dos vocais de clássicos como “Resurrection Absurd” (1989), “The Eternal Fall” (1990), “Cursed” (1991), “Odium” (1993) e tantos outros petardos do Metal da Morte. Pode-se dizer que essa edição é uma edição especial para os cultuadores do Metal da Morte?
André – Conheço o Baloff há décadas, um grande brother! A única entrevista dos tempos das cartas que não perdi foi a dele, várias folhas de almaço. Já o entrevistei três vezes, sendo duas para o SVZ. Sou um grande admirador da PENTACLE, sempre pensei em tê-los nas páginas do zine. Escrevi um e-mail para eles, mas sem retorno. Sabia que o Baloff era amigo do Wannes, e pedi uma ajuda para fazer o meio de campo. E rolou a ideia de fazermos a entrevista a quatro mãos. Wannes demorou um pouco, mas respondeu dizendo que estava com problemas no servidor do e-mail. E, cara, respondeu aquela puta entrevista rapidão! O cara tem quase 40 anos de banda e ainda está disposto a falar com zines. Isso que é ser um verdadeiro headbanger! E o Baloff deu a ideia de entrevistarmos mais duas lendas do Metal da Morte mundial, MORTEM e SADISTIC INTENT. E fechamos essa trinca infernal!!! Já o Sérgio W. de Vilhena, temos que tirar o chapéu pra ele! O cara tem o seu emprego, família, toca na PRECEPTOR, e consegue arrumar um tempo para elaborar matérias para o zine. E a entrevista com o Grewe ficou fantástica. Outra figura importante para o zine é o Lúcio Medeiros, que fica meio nas sombras, mas é um puta revisor e faz um trabalho primoroso. E valeu, cara! Um dos combustíveis é o suporte dos bangers. É como você disse: ter vários colaboradores agrega demais! Nada de ego, a ideia é ter o prazer de escrever sobre aquilo que a gente vive. A décima segunda edição ainda tem uma entrevista com a cult ROT. Um papo gigante, que foi elaborado por cinco pessoas, no qual passamos por todas as fases da banda.
É você mesmo que faz as diagramações de todos os zines que editou? Gostaria que você comentasse sobre o seu trabalho como diagramador, e quais trabalhos já fez/elaborou?
André – Sim, sou eu que faço a diagramação. Somente os primeiros zines, editados no final dos anos noventa, que um amigo ajudava. Em meados dos anos 2000, comprei um computador, o “potente” 486, e foi a partir daí que todos os zines foram diagramados por mim. Fora do mundo dos zines, tive a honra de fazer alguns livros do renomado poeta Glauco Mattoso pela Editora Casa de Ferreiro. Entre os zines, fiz a diagramação para alguns brothers, como The Return Zine, Tenebrarum Zine, e uma pequena força na edição nº 36 do Fly Kintal Zine, entre outros.
Em 2025, você lançou mais um fanzine com uma proposta voltada para o Heavy Metal tradicional chamado Brigada Metálica. Como andam os planos com esse artefato?
André – Cresci ouvindo Heavy Metal, sou fanático por Iron Maiden! O SVZ sempre teve espaço para o Heavy Metal, mas já fazia anos que isso não rolava matérias. Por isso criei o Brigada Metálica, para entrevistar bandas nova e antigas, além de falar sobre discos marcantes. A ideia inicial era fazer uma parada de colagens, mas na correria da vida, nunca tinha tempo de realizar. E, para não deixar as entrevistas engavetadas, fiz a diagramação digital mesmo, mas tentando soar o mais old school possível. Estou pensando em uma nova edição ou até em criar outra publicação, não sei ainda. Escrituras e o SVZ atualmente consomem muito do meu tempo. Na realidade, tenho muitos projetos em mente, mas me falta grana e tempo.
André para gente finalizar gostaria que você me respondesse essas três questões. Qual é o disco mais importante da sua vida?
André – Cara, resumir minha vida em um disco não dá! Impossível… Vou dizer o que vem à mente agora: “The Number of the Beast”, “Restless and Wild”, “Cause of Death”, “Deicide”, “Season in the Abyss” e “…And the Sky Turns to Black… (The Dark Age Has Come)”.
Qual é a sua banda do coração?
Mano, perguntas complicadas. (risos) Não tenho essa de idolatria saca? Mas ouço pra caramba Iron Maiden! Mas, tipo, ouço sempre os quatro primeiros discos da Morbid Angel. Mas é mais ou menos, por aí.
Gostaria de saber um show nacional e outro gringo que você assistiu ao vivo e foi impactante a ponta de fazê-lo pensar: Isso é foda!?
Iron Maiden no RIR, em 2001! Desdominus em Bauru, no início dos anos 2000. Que apresentação matadora! E mais um que merece ser citado, a banda Pactum, no Devotion Mortis III, em 2024.
André, valeu pelo seu tempo cedido. Com certeza essa foi a entrevista mais longa que eu já fiz. Me despeço abrindo espaço para suas considerações finais deixando um abraço. Força Sempre!
André Chaves: Obrigado pelo espaço, meu velho amigo Walter! Entrevista extensa mesmo, mas foi uma grande satisfação ter a oportunidade de falar um pouco do Sepulchral Voice Zine e da minha caminhada no subterrâneo. Muito obrigado a todos que chegaram até aqui e dedicaram um tempo para ler esta entrevista. Fanzine-se!