
A cena curitibana sempre foi respeitada no cenário underground com grandes bandas do metal extremo. Nomes como Amen Corner (Black Metal), Necrotério (Death Splatter), Offal (Death Metal) e Eternal Sorrow (Doom Metal), entre muitas outras, fazem a alegria dos headbangers curitibanos. Uma nova geração vem trilhando os bueiros da capital paranaense e resgatando o espírito do Hard ‘N’ Heavy com uma pegada anos 80. Uma dessas novas bandas é o Stygian. Fomos bater um papo com o maníaco vocalista Raul Salim, que nos fala um pouco mais sobre o futuro da banda.
Saudações maníaco Raul Salim, seja bem-vindo ao Portal The Old Coffin Spirit Zine. Para iniciarmos, a banda é relativamente nova, vamos começar com uma pergunta clichê. Quando despertou a banda Stygian e apresente para nós os seus integrantes?
Raul Salim & Stygyan: E Ai!! Primeiramente, muito obrigado pelo interesse na Stygian. A gente realmente fica muito grato por poder participar de uma entrevista em um portal tão importante para a cena nacional. A Stygian começou como um projeto em 2023, quando eu saía procurando qualquer músico que quisesse tocar heavy metal. Eventualmente, João “Samurai” entrou para o baixo e começou a ter a mesma visão que eu: uma banda de heavy metal com atitude punk e muita influência da new wave. Logo depois veio o Bini, “Hand of Doom”. Eu conheci ele em um show de metal extremo de um projeto dele que durou pouco tempo. O som era bem crú e pouco ensaiado, mas o que me impressionou ao ver o Bini tocar foi o solo era um solo em blues, que me lembrou muito o Saxon. Na hora, eu quis ele para a banda. Na época, o baterista era o Mustaço, mas ele acabou saindo para focar na faculdade. Quem o substituiu foi o Jão “Beholder”. Ele tem esse apelido por ter apenas um olho. É um cara muito gente boa e muito barulhento, o clássico menino thrasher do coletinho. E assim se deu a formação atual, que gravou o clipe e que está tocando em várias datas fora do Paraná este ano.
Então, eu iria entrar no assunto do clipe mais para frente. Mas como você já antecipou o assunto, vou aproveitar o gancho. Nos fale mais sobre esse clipe, como rolou a ideia e qual o conceito por trás do clipe? Eu assisti no YouTube e achei “bem selvagem”.
Raul Salim: Cara esse clipe foi de longe a coisa mais difícil que a gente já fez, foi bem amador, bem “do jeito que dava”. O nosso filtro de luz vermelha era na verdade uma tampa de café que tinha na casa do Felix, para nós ficou super dentro da proposta da banda “punk, DIY, guerrilha.” Porém tudo com muita vontade, tudo sendo feito com muita paixão tanto por heavy metal quanto por filmes de terror lado B.
Estava vendo algumas fotos promocionais da banda e vocês têm essa pegada punk de rua, essa violência urbana, e também percebo influências da estética do clássico filme ‘Warriors’. No clipe, inclusive, transparece essa violência urbana. Faz sentido a minha colocação? Como está sendo a resposta do público para o videoclipe? Vocês gostaram dos resultados finais dele?
Raul Salim – Totalmente, essa estética do “Selvagens da Noite” tem tudo a ver com a gente. Nós somos pias novos que amam filmes dos anos 80 e heavy metal, não somos músicos virtuosos e nem pessoas que se preocupam com a “imagem pública” da banda, é um negócio feito de fã e para fã. Eu, Salim e o baterista Jão amamos punk rock como: Replicantes, Circle Jerks, Black Flag e Dead boys.
O público recebeu muito bem o clipe, me surpreende quando dizem que ficou muito “profissional” quando na verdade foi totalmente amador, a pessoa que editou e gravou foi a tia do nosso baixista ela é fotógrafa e com certeza é por causa dela esse aspecto mais “profissional”. Se não me falha a memória, vocês soltaram um dia antes o single ‘Unholy Blade’ e logo em seguida o videoclipe. Por que vocês resolveram lançar o single e o videoclipe para a mesma faixa?
Raul Salim – Essa música já estava pronta desde o ano passado, e pelo fato dela estar pronta torna mais fácil de gravar o clipe. O clipe demorou 1 ano para ficar pronto.
Achei interessante a capa que vocês escolheram para o single. Por que vocês escolheram aquele desenho e aquela estética que remetem à civilização persa, indiana e árabe, e também os caracteres utilizados?
Raul Salim – Cara eu adoro fantasia. Senhor dos anéis, Warcraft, Elric. Mas o meu favorito mesmo é o Conan; traz muito aquela estética árabe, o oriente místico. Uma das ideias da banda era focar em fantasia não ocidental, eu amo os vikings e os helênicos mas eu acredito que já está bem representado, muitas bandas já fizeram isso queríamos fazer algo diferente, a banda inclusive usa muito a escala árabe para compor. Vale a pena também lembrar que a deusa da destruição, que destrói o antigo para trazer o novo tem tudo a ver com heavy metal.
Ainda falando sobre o videoclipe… Logo na abertura, vocês prestaram uma homenagem ao vocalista e produtor Arthur Migotto, ex-vocalista da grandiosa banda Hazy Hamlet e o homem por trás dos botões do estúdio Heavytronstudio. Se não me engano, foi ele quem mixou o single de vocês, ‘Unholy Blade’. Como ele recebeu essa homenagem? E aproveite para me contar como é trabalhar com o Migotto em estúdio.
Raul Salim – Trabalhar com o Arthur é mais que um privilégio, é um sonho que se tornou real. Para quem não sabe eu idolatro o Arthur e ele é o motivo dessa nova onda de bandas paranaenses, ele trás essa produção impecável, o trabalho do Arthur é um dos melhores do mundo, não perde em nada para qualquer estúdio europeu. Além de mixar e gravar, ele também fez backing vocal.
Então, realmente a cidade de Curitiba possui uma cena de Heavy Metal Tradicional muito forte, com ótimas bandas. A capital paranaense é bastante conhecida pela sua cena mais extrema, com várias bandas de Black Metal e Death Metal, respeitada no Brasil. Como você vê essa nova onda de Heavy Metal em Curitiba? Poderia nos falar mais sobre as bandas, festivais e bares que apoiam e dão visibilidade a essa cena, que é composta por uma nova geração de músicos, produtores e público?
Raul Salim – As bandas se apoiam muito, Portal, Leather Wrath, Stygian, Espectro, Creatures, Phantom Star e Wild Witch. Nós vamos nos shows um dos outros, e ajudamos na divulgação. O Creatures principalmente abriu várias portas para Curitiba sendo indiscutivelmente a nossa maior banda. O Camaleão Cultural se tornou uma casa para essa nova onda de metal Curitibano, e mais importante o Arthur nos deu a condição de gravar com qualidade; e além disso ele nos motivou e de uma maneira ou outra apoiou TODAS as bandas locais. Ele é uma lenda e um è um herói pessoal meu.
Todas as bandas citadas fazem um som incrível em estúdio e tive o privilégio de ver algumas delas ao vivo e fizeram shows matadores! Eu adicionaria nesta lista também o HellGun, infelizmente a banda acabou! Mas deixaram dois full length (king Of Beyond(2020) Haunted Trip/split(2022) matadores e com certeza escreveram seu nome na história do metal brasileiro. O que você achava do HellGun?
Raul Salim – Não só a HellGun como o Matheus Luciano foram grandes inspirações para mim e para Stygian, tivemos nossas diferenças no passado, porém a Hellgun apresentou o heavy metal underground para uma geração junto com o Murdeath, quem acompanha os meus stories e o da stygian sabe que nòs cultuamos o Murdeath, todo dia eu sonho com a volta do Murdeath, o que ambas essas bandas traziam para a cena era seriedade e organização, enquanto a maioria das bandas tinham dificuldade em levar o som pra fora da cidade, a Hellgun e o Murdeath estavam fazendo tour e lançando material internacional. Era realmente muito impressionante. Como eu disse mais acima, a cena curitibana é conhecida por bandas mais extremas. Desde 2009, já existia uma nova geração dando o grito de rebeldia nos bueiros da capital paranaense. Lembro da Poison Beer e lembro a primeira vez que cruzei o Jean, guitarrista da Murdeath. Ele era um garoto, muito jovem. Acho que foi no Espaço Cult, no Largo Da Ordem, vendendo a primeira demo tape da banda e adquiri uma cópia. O material era em CDR e vinha em uma embalagem em formato vinil.

Peguei alguns shows deles e sempre foram foda! Lembro que os headbangers mais velhos de Curitiba os chamavam de “babymetal”. Como é a relação dessa nova geração curitibana com os headbangers mais velhos nos dias atuais?
Raul Salim – Cara, na minha experiência pessoal a galera mais velha foi muito positiva, muito positiva mesmo, gostaria de deixar aqui os nomes do Urso, do Babbur e do Daniel Demented que ajudaram para caralho a banda e sempre nos apoiaram. Mesmo o nosso som sendo heavy metal “tradicional” ainda chamou muito a atenção do pessoal do extremo, isto é devido ao uso de sangue falso, temática das letras e presença, e adiciono que a cena de Curitiba abraçou muito a gente e todos nós somos eternamente gratos.
Raul, você não acha que está mais que na hora da Stygian lançar um full length? Como anda o processo de composições e existe uma data e previsão para vocês lançarem esse material tão aguardado por admiradores da banda?
Raul Salim – A gente está gravando o full desde junho do ano passado, o estúdio teve alguns problemas de agenda. Acredito que o full sairá no segundo semestre deste ano.
Vocês têm contatos com um selo para lançar o futuro trabalho ou vão lançar de forma independente?
Raul Salim – Estamos negociando com um selo ainda, preferimos anunciar mais próximo a data de lançamento do full. O nome talvez mude, atualmente está como Danger and Pride. Exclusivamente para a The Old Coffin Spirit, vamos divulgar pela primeira vez às faixas:
Where Evil Dwells
Heavy metal load
True Evil
Unholy Blade
Camel Rider
Danger and Pride
Hyborean Hunter
Fire and Hate
Jehova
E por último a nossa faixa mais diferentona bem na veia do Satan’s Fall, chamada: Jehova
Eu não conhecia a Stygian, mas tive o prazer de conhecê-los no palco durante o “Night Of The Blade Fest” em 2024, na cidade de Curitiba. Foi uma agradável surpresa! Na mesma noite, se apresentaram Górgona, de Cascavel (PR), Wild Witch, de Curitiba, e os veteranos da Slammer. Fiquei impressionado com a dinâmica de sua performance no palco. Sua voz me fez lembrar bastante do grande vocalista Kevin Dubrow (R.I.P/2007), do Quiet Riot, e da encenação de Gordon Kirchin (R.I.P./2022), do lendário Piledriver. Faz sentido para você essa minha análise? Se sim, me diga o que representa para você esses dois ícones e grandes vocalista, e realmente estão entre suas influências, como cantor de uma banda de Heavy Metal?
Raul Salim – Eu acredito que o Quiet Riot lembre um pouco devido a minha voz aguda e brilhante, quanto ao Piledriver totalmente. Todas as bandas com teatralidade inspiraram a Stygian, Nasty Savage, Demon, Venom, Wasp, Manowar, Dio. O som é um resgate do começo da new wave quando as bandas misturavam muito punk com o heavy metal, Bloodmoney, Tank, Tyson Dog, Maiden do Paul di’anno. A questão da teatralidade vem de uma vontade de trazer algo a mais, eu penso que se a pessoa tomou tempo de vir até meu show, ficou até tarde esperando a gente tocar, ele merece mais do que 4 pessoas tocando parado. Inclusive Walter, fico feliz que tenha gostado do show, e te digo que a gente aumentou muito as teatralidades desde então.
Realmente, o show de vocês me chamou atenção. Cheio de energia e teatralidade, com todo o clichê dos anos 80. Descreva para nossos leitores como é uma apresentação da Stygian ao vivo?
Raul Salim – Um show da Stygian se resume em 2 palavras: Caos e Poder. A gente usa muitos “props”, espadas cenográficas, machados reais porém sem fio, cenas de sacrifício humano com mulheres usando manto de ocultista, muita interação com o público, e para acabar: órgãos de animais e sangue falso. Como frontman eu tento entregar o máximo que eu consigo, Dee Snider, Paul Baloff, Alice Cooper, Rob Halford, Freddie Mercury, eu tento me mexer como esses caras.
Você, sendo um garoto ainda, e seus amigos de banda, que também estão na mesma faixa etária, são fãs de Heavy Metal dos anos 80 e representam a nova geração do underground, a geração do século XXI. Cresceram com as facilidades da tecnologia do mundo contemporâneo. Como você vê a cena contemporânea em comparação com a cena dos anos 80, 90 e início dos anos 2000? O que você acha que melhorou e o que não melhorou e ainda poderia melhorar?
Raul Salim – A nossa idade é uma lâmina de dois gumes, por um lado tudo é mais acessível, é mais fácil gravar, mais fácil ter acesso a estúdio para ensaiar e infinitamente mais fácil se comunicar com a cena de outras cidades. O outro lado da moeda é que parece que na nossa atual modernidade líquida as pessoas não dão tanto valor ao trabalho alheio, na era dos reels e do conteúdo “brainrot” as pessoas não conseguem entender escutar um cd inteiro de 40 minutos, quanto mais dar valor a um trabalho 100% orgânico sem uso algum de I.A. Mesmo assim continuo positivo com a nova geração, muitos dos jovens headbangers servem como resistência a esse desleixo que se passa por cultura hoje em dia, embora em menor quantidade o verdadeiro pessoal do underground está cada vez mais dedicado à causa. Sim, cara, hoje as pessoas vivem uma vida de muita correria. É trabalho, família e o tempo todo com celular nas mãos. Enxurradas de informações e notícias a todo tempo. Muita fake news e plataformas de streaming indicando vários livros, filmes, bandas e discos, e o indivíduo recebeu tanta informação no final do dia que não salvou nada na memória. Feliz éramos nós nos anos 90, que tínhamos que fazer uma verdadeira arqueologia cultural para descobrir um bom livro, um bom disco e uma boa banda. Existem discos cujas notas, solos e detalhes conheço tão bem, de tanto que os ouvi em uma K7 gravada de forma precária por um amigo. Conseguia gravações com um amigo e, como não tínhamos acesso a tanta informação, ouvia, ouvia e ouvia a mesma banda e o mesmo disco por meses no walkman, até conseguir outra gravação, que fazíamos em trocas.
O que você pensa sobre redes sociais e plataformas de streaming? Ajuda ou atrapalha?
Raul Salim – Cara, é algo que para o meu desagrado se tornou necessário, são dois gumes novamente, por um lado é muito bom pra divulgar nossa imagem, dá uma certa autonomia midiática para a banda. Por outro lado eu acho que acaba seduzindo as bandas a viver só de imagem, e imagem sem atitude è o que mata o rock, as bandas muitas vezes escolhem o caminho mais fácil: Meme para engajar, Ir de acordo com o que está popular, trendzinhas e afins. A stygian è uma banda bem autêntica, nós somos os piazinhos, os gremlins do rock, eu mesmo falo eu sou o gordo da cerveja. A gente não tenta se pagar de músico virtuoso e muito menos de malvadão. E eu tento não “profissionalizar” muito o instagram da banda por conta disso.
Mais acima você comentou sobre I.A. Esses dias apareceu umas bandas numa vibe setentista, tipo de som que eu curto e gostei! Mas sempre pesquiso tudo que chega até mim e descobri que era uma banda artificial. Fiz um comentário no canal dessa banda fake. Aliás, tem canal no YouTube só com esse tipo de banda. O integrante da banda veio me dizer que ele estuda muito para fazer esse trabalho e as composições. Eu só ri e respondi: não é banda! É fake! O que você acha desse tipo de bandas/programadores? Não é músico e isso é um fato! Você acredita que esse tipo de música/banda será o futuro da música?
Raul Salim – I.A não faz arte, nunca fez arte e nunca fará arte, se o próprio artista não se preocupa em fazer sua arte eu me pergunto, por que eu deveria consumi-la? ” Ah mas eu canto muito mal” então cante mal mas cante.” ah eu não sei solar, então sole mal”. Não tem problema em fazer arte que não seja “erudita”. Arte é expressão, emoção, se você a faz com paixão as pessoas vão se identificar e vão te apoiar.
Quais são os planos futuros da banda para esse início de ano de 2026?
Raul Salim – Fazer uma tour maior com o lançamento do cd: São Paulo, Rio de Janeiro,Minas Gerais e gostaríamos muito de também ir para o norte/nordeste do Brasil.
Para finalizarmos, eu gostaria que você citasse 5 bandas e 5 álbuns de Heavy Metal dos anos 80 que você considera essenciais, além de 5 bandas e 5 álbuns de Heavy Metal contemporâneo que você respeita e indicaria aos nossos leitores. Raul, um abraço e nos vemos no submundo. Força, sempre!
Raul Salim –
Judas Priest – Unleashed In The East
Heavy Load – Glory or Death
Running Wild – Gates to Purgatory
Mercyful Fate – Melissa
Tank – Filth Hounds of Hades
Creatures 2
Wild Witch – The Reapers Blade
Flagelador – Assalto da Motoserra
Murdeath – Sob o Signo
Espectro – Espectro
Muito obrigado Walter, é uma HONRA ser entrevistado por um grande personagem do underground brasileiro.