
O VULTHUM surgiu em 2019, com integrantes ativos no submundo e experientes no underground. Com uma proposta de fazer um Black Metal frio e sombrio, em 2021 através do selo Drakkar Records, lançaram o aclamado full lenght: Shadowvoid. Agora em 2025 lançaram o segundo capítulo dessa saga fria e sombria com o trabalho: The Tyrant Tale. Fomos conversar com o guitarrista Shammash um pouco mais sob o Vulthum e seu cold & grim black metal.
Saudações Shammash, seja bem vindo ao The Old Coffin Spirit Zine Portal. Meu caro, como surgiu a ideia de montar a Vulthum e foi fácil trabalhar com músicos já gabaritados na cena que fazem/faziam parte de bandas respeitadas no cenário brasileiro? Músicos experientes que vêem de bandas como; Mythological Cold Towers, Templum,Guehenom, Unholy Outlaw e Spell Forest?
Shammash – Hail, Waltinho! É uma honra imensa trocar essa ideia contigo para o *The Old Coffin Spirit Zine*, um verdadeiro portal de resistência e devoção ao underground. Gratidão pelo espaço e por manter essa chama acesa! Então, o Vulthum nasceu lá por 2019, de forma até bem natural. Eu e o Samej já vínhamos tocando juntos no Templum, que era uma banda de culto mesmo, mais fechada, e com o tempo sentimos a necessidade de dar vida a algo mais direto, sombrio e com mais espaço para canalizar nossas visões sobre morte, miséria, espiritualidade e escuridão — sempre dentro de uma linguagem poética, crua e ritualística. A entrada do Thorngreen, que já vinha de bandas como Spell Forest, Unholy Outlaw e também tocou comigo no Templum, fechou o triângulo profano. A sintonia entre nós sempre foi muito forte. Não diria que foi “fácil”, mas foi intenso e verdadeiro — cada um trouxe não só experiência, mas principalmente *vivência* no underground, aquela estrada suja e sofrida, que forja caráter e separa os verdadeiros dos modistas. A proposta do Vulthum nunca foi soar moderno ou técnico, e sim honesto e atmosférico. Frio, sombrio e atemporal. E foi nessa união de forças que criamos o Shadowvoid, lançado em 2021 pela Drakkar. E agora, com The Tyrant Tale, sentimos que avançamos ainda mais dentro desse abismo que cavamos com as próprias mãos.
A formação conta com o vocalista Samej, com o baixista Thorngreen e com você Shammash na guitarra. Porque não efetivaram um baterista na banda e porque resolveram investir nessa sonoridade fria e obscura, que resgata as raízes do black metal noventista?
Shammash – Excelente pergunta, mano Waltinho! Sobre a bateria, a decisão de não ter um baterista fixo foi algo bem consciente. A gente sempre prezou pela liberdade criativa dentro da banda — sem pressa, sem pressão, sem aquela necessidade de estar sempre ensaiando ou tocando ao vivo. Como o foco do Vulthum sempre foi compor e gravar álbuns com atmosfera, profundidade e conceito, acabou funcionando melhor trabalhar com bateristas convidados que entendessem essa visão. O Jack Ferrante, por exemplo, gravou tanto no Shadowvoid quanto agora no The Tyrant Tale, e fez um trabalho absurdo, muito acima da média. Ele entendeu perfeitamente o espírito das composições e soube imprimir uma pegada fria, orgânica e sombria, sem cair na mesmice de blast beat vazio que a gente vê muito por aí. Sobre a sonoridade: a gente não forçou nada. O som do Vulthum simplesmente nasceu assim porque é o que habita dentro de nós. Não tem cópia, nem revival barato — o que há é devoção total ao feeling do black metal dos anos 90. Aquele som que era mais sobre invocar sensações do que mostrar técnica. Guitarras gélidas, melodias obscuras, letras com peso filosófico e espiritual… isso sempre nos atraiu. A ideia é essa: manter o espírito vivo. Não imitar, mas carregar a tocha. Pra nós, black metal ainda é arte, é rito, é expressão da dor e da glória dentro da escuridão.
Pois é, Shammash, concordo com você em relação ao som ser ultra rápido, cheio de blast beats e demasiado técnico e sem sentimento. Muitas bandas/músicos acham que colocar um vocal gutural e rasgado cheio de velocidade e técnica, é cool é real. Esquecem o principal: amor ao metal negro, o Feeling e o sentimento. Como você vê o black metal contemporâneo?
Shammash – Totalmente, mano Waltinho! Assino embaixo do que você falou. Hoje em dia a gente vê muito músico que trata o Black Metal como se fosse um esporte, uma competição de BPM e palhetada alternada. Tudo limpo, tudo técnico, tudo cronometrado…mas sem alma. Esquecem que o Black Metal nasceu como uma forma de expressão visceral, quase primitiva — é raiva, é dor, é desespero, é transcendência. E isso não se mede em velocidade, se sente na pele. Tem muita banda hoje com som redondinho, mixagem de estúdio milionário, visual impecável…mas quando você ouve, não sente nada. É como um cadáver maquiado: tá ali, mas tá morto. Por outro lado, ainda existem aqueles que mantêm a chama acesa, que não traíram o espírito do verdadeiro metal negro. Bandas novas e antigas que entendem que Black Metal é muito mais do que música: é filosofia, é negação do mundano, é contemplação do abismo. O som pode até ser sujo, simples ou gravado no quarto — se tiver sentimento, já vale mais que mil álbuns técnicos e vazios. Aqui no Vulthum, o lema é esse: manter o feeling*acima da forma. Preferimos errar e emocionar do que acertar todas as notas e não dizer nada.
Sim, meu amigo, tudo artificial e pasteurizado. Eu ainda escuto o velho metal negro dos anos 90 e bandas que me chamam ainda atenção e consigo ouvir e sentir o espírito, o sentimento são bandas brasileiras e da América do Sul. É fato que os três integrantes da Vulthum, habitam à muito tempo o submundo desde os 90. Gostaria de saber o que o black metal representa para vocês e se vocês seguem alguma filosofia da mão esquerda?
Shammash: Perfeito, meu irmão… Essa tua fala poderia estar gravada numa faixa do *De Mysteriis* — é isso aí: tudo muito plástico hoje em dia, muita produção e pouca verdade. Mas o subterrâneo ainda pulsa forte aqui na América do Sul, com bandas que sangram de verdade e ainda fazem Black Metal com convicção, não pra agradar algoritmo. Sobre o que o Black Metal representa para nós: é difícil até colocar em palavras. É mais que som, mais que estilo. É uma chave que abre portais internos, é uma forma de vida, um espelho do caos, do desencanto, da contemplação da ruína e da morte — mas também da liberdade espiritual. Black Metal sempre foi a expressão do inconformismo, da busca solitária por algo além deste mundo miserável. A gente nunca seguiu nenhuma cartilha ou filosofia engessada. Mas sim, há em nós uma inclinação natural pela via da mão esquerda — não como um modismo, mas como uma jornada pessoal, introspectiva, de negação do rebanho e das amarras religiosas, morais e sociais. Cada um na banda tem seu próprio caminho, mas há um ponto comum que nos une: a recusa da mentira, a veneração do oculto e o culto à introspecção sombria. O Vulthum é a nossa oferenda ao abismo. Não estamos aqui pra pregar nada, mas para ecoar os gritos que vêm das cavernas da alma.

Sim, meu caro! Não há Deus acima e nem abaixo. Eu acredito que buscar ou ter uma espiritualidade, faz parte da evolução humana. Que fique claro; espiritualidade não é religião organizada. Coisa que abomino! Odeio religiões! Acredito que qualquer fanatismo é prejudicial seja, ele religioso, futebolístico ou nacionalista. Espiritualidade é autoconhecimento de si próprio é tentar entender o mundo a nossa volta e abrir os olhos para o que está oculto, além de nossa ótica. Você acredita que o black metal virou moda ou é só estética, para chamar atenção e que não choca mais a dita sociedade conservadora?
Shammash: Realmente, meu caro. Espiritualidade verdadeira é justamente isso: mergulhar dentro de si, buscar respostas no escuro, enxergar além da superfície. Não tem nada a ver com religião organizada, dogma ou moral de manada. E o fanatismo, seja lá por qual bandeira, é só mais uma prisão — pintada com cores diferentes, mas sempre com as mesmas grades. Sobre o Black Metal virar moda… infelizmente, em certa medida, sim. Hoje você vê uma molecada vestida de corpse paint, comprando camiseta de banda que nem conhece, e fazendo post no TikTok com trilha sonora de Darkthrone, sem nem entender o que aquele som representa. Muita gente acha que é só questão de visual, logo bonito e falar “hail Satan”, como se fosse um acessório fashion ou uma fase de rebeldia adolescente. Mas o que a maioria não entende é que o Black Metal nasceu pra ser antagônico, pra afrontar tudo o que é raso, hipócrita e domesticado nesse mundo. O problema é que a sociedade de hoje já não se choca mais com aparência — mas se assusta quando você demonstra profundidade. Quando você fala sobre morte, niilismo, miséria existencial, ou quando assume uma postura de total rejeição à moral vigente… aí sim a coisa incomoda. O verdadeiro choque está em pensar por si mesmo. O verdadeiro *underground* não está na estética, mas na atitude. E isso, meu camarada, ainda é a lâmina mais afiada contra essa sociedade podre.
Infelizmente o black metal virou isso mesmo. Não quero e não vou ter atitudes de “velho true” saca. Não sou contra o metal negro receber uma nova geração. Mas essa molecada tem que procurar entender as letras e todo o conceito filosófico e postura que existe dentro da estética black metal. Realmente, cara, fanatismo é patologia. Mas o que você pensa do blackmatellers seja eleo admirador da suprema arte negra, ou mesmo o músico que crítica religiões cristãs e é tão fanático por satanismo quanto um evangélico ou católico, patológico? E o cara, se diz amante da filosofia da mão esquerda e vota e defende um político doente, escroto, evangélico e que diz: Deus acima de tudo.
Shammash – Eu vejo da mesma forma: o problema nunca foi a nova geração chegar no Black Metal. Muito pelo contrário — é essencial que novas almas entrem nesse culto, desde que venham com respeito, curiosidade verdadeira e vontade de entender o que existe por trás do som, da estética e da postura. O Black Metal não é só visual e barulho: ele carrega décadas de ideias, confrontos e rupturas. Não dá pra se dizer parte disso sem ao menos tentar compreender. Agora, quanto ao que você falou… é o retrato da contradição moderna. Tem muito “blackmetaller” por aí que critica o cristianismo em letra de música, mas age com o mesmo fanatismo cego que um pastor de terno e microfone. O cara grita “hail Satan” como se fosse uma frase de efeito, mas não entende nada da filosofia da mão esquerda, do caminho do autoconhecimento, do rompimento com dogmas. Pior: muitos desses ainda batem continência pra político evangélico, moralista, que defende os mesmos valores que eles dizem odiar nas letras. Isso pra mim é esquizofrenia ideológica — ou hipocrisia pura. O verdadeiro caminho da mão esquerda é individualista, libertador, niilista quando precisa ser, e totalmente incompatível com qualquer tipo de idolatria de massa, seja por igreja ou por político. Se você diz buscar a escuridão, então abrace a responsabilidade de pensar por si, de não seguir líder nenhum, e de aceitar a solidão que vem com isso. Porque é isso que esse caminho exige: verdade. No fim, a máscara cai. O tempo separa os que vivem o Black Metal dos que só brincam com ele.
Vocês ficaram satisfeitos com á recepção e atenção que “Shadowvoid”, colheu no submundo tanto da mídia especializada, como do público que curte metal negro? Vocês esperavam um acolhimento assim afinal é um full length? De certa forma a Vulthum era uma banda nova?
Shammash – Sim, com certeza ficamos muito satisfeitos com a recepção que o *Shadowvoid* teve no underground. A gente lançou o disco com o coração limpo, sem esperar nada em troca, só com a intenção de manifestar algo verdadeiro, obscuro e carregado de sentimento. Foi tudo feito de forma bem artesanal — sem investimento em mídia, sem alarde. Só a música e o espírito do black metal como guia. E mesmo sendo uma banda nova, sentimos logo de cara um respeito muito grande por parte do público mais fiel ao metal negro — aquela galera que realmente ouve com atenção, lê as letras, sente o clima e se importa com o que está por trás das composições. A Drakkar também foi importante nesse processo, ajudando a espalhar o disco para lugares que talvez a gente não alcançasse sozinho. O que surpreendeu mesmo foi a repercussão fora do Brasil. Recebemos mensagens e apoio de vários países — Europa, América do Norte, Japão, México… zines e rádios nos dando espaço, colecionadores atrás do material físico… tudo isso sem forçar nada. Foi acontecendo porque o som ressoou com quem precisava ressoar. No fim das contas, Shadowvoid abriu portas, sim — mas principalmente cravou as estacas do que é o Vulthum: um culto à melancolia, à obscuridade e ao vazio existencial. O acolhimento que tivemos só reforçou que ainda existe sede por esse tipo de arte.
Você lembra como rolou as composições e todo o processo de criação musical e à estética por trás das cores do disco e a escolha da capa do álbum?
Shammash – Lembro sim, com muita clareza, como todo o processo de composição e estética do *Shadowvoid* aconteceu. Foi algo que surgiu de forma muito natural, mas ao mesmo tempo muito intuitiva e carregada de intenção. As músicas nasceram entre 2019 e 2020, num período de isolamento e introspecção profunda — e cada riff, cada atmosfera, era como uma tradução do que a gente sentia por dentro: desolação, frio espiritual, a presença constante do vazio. A ideia nunca foi fazer um disco pra impressionar tecnicamente. Pelo contrário, queríamos algo que evocasse o espírito do Black Metal noventista, aquele que mexe com o inconsciente, que cria imagens internas, que perturba e fascina ao mesmo tempo. Um som que caminha lado a lado com o oculto, com o invisível, com o abismo. E isso se refletiu totalmente na estética visual do álbum. A capa do *Shadowvoid* foi pensada como um espelho da nossa própria essência — algo simbólico e sombrio. Ao invés de usar uma arte fantasiosa ou uma paisagem mística, escolhemos nossas próprias faces, em preto e branco, com uma espécie de reflexo espectral ao lado de cada um de nós. Como se fossem versões deslocadas, entidades duplas… um “Vulthum” de nós mesmos. O que aparece ali não são simplesmente retratos, mas sim projeções de quem somos espiritualmente, ou o que nos habita no plano mais profundo. Essa estética minimalista, crua, sombria — em preto e branco — foi totalmente pensada nos moldes dos anos 90. Tínhamos em mente aquelas capas enigmáticas que transmitiam mistério, frieza, aura ritualística. Nada colorido, nada explicadinho. Apenas sombra e presença. A capa é silenciosa, mas fala muito. Queríamos manter essa atmosfera bestial, obscura, gélida e desoladora que define tanto o som quanto a alma do Vulthum. E, no fim, ela completou o disco de forma perfeita: é como se fosse uma extensão visual da música — um portal que se abre antes mesmo da primeira nota soar.
Se tem algo de bom na pandemia que assolou o mundo e aqui no Brasil, sempre é pior, né, onde morreram 700 mil pessoas, é que saíram grandes álbuns de metal e muitas bandas e projetos saíram das sombras e ganharam vida. Lembro dos comentários em redes sociais e mídia especializada, dizendo que a arte do disco combinava muito bem com as letras e músicas, aquela estética fria e obscura, que se perdeu nos dias atuais, dentro da cena black metal. Era comentado como se tudo que envolveu o trabalho, seja a parte musical ou layout, fosse planejado e pensado. De alguma forma esses comentários afetaram vocês ou não?
Shammash – Sim, a gente lembra bem desses comentários — e, pra ser honesto, eles nos tocaram de uma forma muito positiva, porque mostraram que a mensagem foi absorvida do jeito certo. Nada ali foi feito no improviso. Tanto a parte musical quanto a estética visual do *Shadowvoid* foram pensadas como uma entidade só. Era tudo sobre atmosfera, coerência, intenção. Então ver que as pessoas perceberam essa ligação entre som, letra, arte e aura foi gratificante, porque é raro hoje em dia alguém prestar atenção nesses detalhes. Durante a pandemia, como você disse, houve um mergulho coletivo na escuridão — e talvez por isso o álbum tenha tocado tanta gente. Era um momento onde o mundo estava silencioso, cinza, isolado… e o Shadowvoid parecia uma trilha sonora desse cenário. O Brasil, como sempre, viveu o lado mais cruel de tudo — então também foi um grito abafado vindo de um país mergulhado na morte, na miséria e na ignorância. Mas apesar do reconhecimento, a gente sempre procurou manter os pés no subterrâneo. Nada disso nos fez desviar o foco. Ficamos felizes, claro — mas nunca fizemos o disco pra ser elogiado. Fizemos porque precisávamos. Era uma necessidade espiritual e criativa. Se foi bem recebido, ótimo. Se não fosse, seguiríamos mesmo assim, como sempre fizemos. No fim, esses comentários só reforçaram que ainda existe espaço pra arte feita com verdade. E isso, por si só, já vale mais do que qualquer aplauso.
Como foi o contato com a Drakkar Records e vocês ficaram felizes com essa parceria? Afinal de contas, hoje com acesso à internet é mais fácil divulgar uma banda e um trabalho, de forma independente e ter controle na sua obra, ou você acha que é importante sim, ter um contrato com um selo?
Shammash – Excelente pergunta, mano — é um ponto bem importante de se falar, porque muita banda hoje se perde nesse dilema entre fazer tudo por conta ou assinar com selo. O contato com a Drakkar aconteceu de forma bem natural. Eles ouviram as prévias do *Shadowvoid*, curtiram o material, entenderam a proposta da banda e entraram em contato oferecendo apoio. O Rudimar, da Drakkar Brasil, desde o início mostrou muito respeito pela nossa visão, sem querer moldar nada, sem querer “formatar” o som para encaixar em catálogo nenhum. E isso pra nós foi crucial. A gente não queria um selo que mandasse na arte — queríamos um parceiro que ajudasse a espalhar a praga, mantendo a essência intacta. E foi exatamente o que aconteceu. Sobre lançar de forma independente ou com selo: hoje, sim, com a internet é possível divulgar seu som sozinho, controlar tudo e até alcançar um público razoável. Mas isso tem um custo — tempo, energia, dinheiro. E a verdade é que um selo sério ainda faz diferença, principalmente no meio físico. Eles cuidam da produção, distribuição, contatos com zines, distros, feiras, mídia especializada… coisas que, sendo bem sincero, muitas vezes fogem do controle quando você está focado em compor, gravar e manter a alma da banda viva. No nosso caso, a parceria com a Drakkar nos deu liberdade total e ao mesmo tempo ampliou nosso alcance. O Shadowvoid chegou em lugares que talvez demorasse muito mais se fosse só no esquema do “faça você mesmo”. E agora, com The Tyrant Tale, a parceria segue forte — com respeito mútuo e fidelidade ao espírito underground. Resumindo: dá pra fazer tudo sozinho, claro. Mas se você encontrar um selo que entende sua proposta e caminha ao teu lado sem te transformar num produto, aí é aliança, não contrato. E isso vale ouro no submundo.
Todos na banda Vulthum já são velhos guerreiros do submundo e amantes do físico e do analógico. Recentemente foi lançado o Shadowvoid em vinil e vocês como old school headbangers, devem ter ficado muito felizes com essa versão,não é mesmo? Esse material só saiu na Europa, existe previsão de ser lançado por aqui, no Brasil? Que selo foi responsável por esse lançamento?
Shammash – Com certeza, meu caro — esse lançamento em vinil do Shadowvoid foi um momento muito especial pra gente. Como você bem disse, somos todos do tempo em que o som vinha com cheiro de encarte, com textura de capa e com o ritual de sentar, olhar pro vinil girando e sentir a música como um todo, não só como trilha de fundo. Ver o Shadowvoid finalmente materializado em LP, com aquela estética crua e gélida ganhando vida num formato tão clássico e cultuado, foi como fechar um ciclo. E mais do que isso: foi uma homenagem ao próprio espírito que originou o Vulthum. Não estamos aqui pra correr atrás de stream ou curtida. Nossa alma sempre pertenceu ao físico, ao ritual, ao underground raiz. Esse lançamento foi feito na Europa pelo selo francês Khaoszophy Records, que fez um trabalho impecável. A prensagem ficou linda, com qualidade sonora e visual muito acima da média. Inclusive, recebemos muitos elogios de colecionadores e zines gringos que ficaram impressionados com o cuidado estético do material. Por enquanto o LP saiu apenas na Europa, mas estamos conversando com a Drakkar Brasil sobre a possibilidade de distribuí-lo no país. Sabemos que tem muita gente aqui no Brasil que ainda valoriza o vinil, e seria uma honra ver esse disco girando nas pickups do nosso próprio solo maldito. No mais, o importante é que o Shadowvoid agora respira no formato que sempre mereceu. E isso, pra nós, já é uma oferenda completa.
A Vulthum “digamos que seja um power trio maléfico, frio e obscuro”. Os três integrantes fazem parte de outras bandas e você Shammash está morando fora do país, em Portugal, né? A Vulthum é uma banda mais focada em trabalhar em estúdio ou existem possibilidades de fazerem shows para divulgar esse novo trabalho? Na divulgação do Shadowvoid vocês fizeram alguns poucos shows né ? Como o público reagiu às celebrações ao vivo da banda?
Shammash – De fato, o Vulthum é esse power trio maléfico, frio e obscuro que você descreveu com perfeição. Somos três entidades distintas, mas conectadas espiritualmente por essa visão sombria que deu origem à banda. Cada um de nós segue também com outras atividades musicais — o Samej e o Thorngreen continuam com seus trabalhos no Brasil, e eu, agora morando em Portugal, mantenho a chama acesa daqui, compondo e produzindo as bases que dão forma ao nosso culto. Desde o início, o Vulthum foi pensado como uma entidade mais voltada ao estúdio, algo mais introspectivo, quase como um ritual gravado. Nunca tivemos aquela obsessão por subir em palco toda hora. Mas isso não significa que estamos fechados a apresentações ao vivo — pelo contrário. A ideia sempre foi fazer poucos, mas marcantes rituais ao vivo. Nada de banalizar a presença. Cada show precisa ter propósito, atmosfera e entrega total. Na época do Shadowvoid, fizemos apenas alguns shows, e todos foram muito bem recebidos. A resposta do público foi intensa — não no sentido de pular ou fazer roda, mas naquela concentração de olhar, na sensação de que estavam participando de algo que ia além da música. A gente sentiu isso. As pessoas absorveram. E agora, com The Tyrant Tale prestes a ser lançado, vamos seguir nessa mesma linha: eventos pontuais, escolhidos a dedo. Inclusive, já podemos adiantar aqui que em breve será anunciado um show muito especial no dia 6 de dezembro, organizado pela Storm Productions. Vai ser uma celebração imersiva, com tudo que o Vulthum representa: escuridão, melancolia, liturgia e ruína. Um verdadeiro ritual ao vivo. Então sim, seguimos principalmente como uma banda de estúdio — mas quando subimos ao palco, é pra cravar a lâmina fundo.
Em 2025, está saindo um novo trabalho chamado: The Tyrant Tale. O que você pode nos dizer deste trabalho. Gostaria que você nos desse mais detalhes sobre as composições, quem é o produtor, que estúdio foi gravado e quem é o artista por trás da capa e layout?
Shammash – Com todo prazer, meu camarada — The Tyrant Tale é um disco muito especial pra nós. Ele representa a continuação natural do que foi iniciado em Shadowvoid, mas ao mesmo tempo carrega uma atmosfera própria, mais madura, mais narrativa e ainda mais sombria. Esse novo trabalho é um álbum conceitual, ambientado numa Idade Média sombria e decadente. As letras — todas escritas pelo Samej — contam a história de um tirano que vive recluso em seu castelo, dando vazão aos seus desejos mais perversos. Através de torturas, manipulação e rituais profanos, ele domina suas vítimas física e espiritualmente, como um senhor absoluto de um mundo já corrompido pelo horror. É uma alegoria do poder corrompido, da natureza humana quando deixada à própria escuridão. As composições nasceram entre 2022 e 2024. Eu assinei toda a parte instrumental, escrevendo as guitarras como se fossem trilhas sonoras desse castelo em ruínas. Tem mais melodia, mais passagens cadenciadas e sombrias, mas sem perder aquela frieza que define o som do Vulthum. Algumas músicas têm construções mais elaboradas, outras são diretas e sufocantes. Existe uma variação maior de climas — ruínas, ecos, passos em corredores vazios, gritos abafados… tudo isso foi traduzido em riffs e ambientações. A produção e mixagem ficaram novamente nas mãos do Eric Cavalcante, que já havia trabalhado no Shadowvoid. O Eric entendeu perfeitamente a alma desse novo disco e conseguiu dar um peso ainda mais orgânico e atmosférico. Algumas sessões de gravação aconteceram aqui em Portugal, com apoio técnico do Victor Próspero (Carpatus / Absyde), que também colaborou com detalhes de gravação e ambientação — inclusive no processo da pré-produção do próximo álbum. Além disso, The Tyrant Tale conta com participações especiais que ampliaram a dimensão do álbum. O Bruno Augusto (filho do Thorngreen) compôs e gravou a introdução com órgão, criando uma ambientação fantasmagórica, além de um interlúdio acústico sombrio. Já o músico Héctor Nehtron (da banda mexicana Exaversum) foi o responsável por uma faixa instrumental e orquestrada, que soa como o ápice trágico da história do tirano. A capa, mais uma vez, é obra do Rodrigo Bueno, que capturou com perfeição a essência do álbum. A imagem mostra o castelo do tirano, envolto em sombras e decadência, quase como uma pintura esquecida num salão em ruínas. O layout acompanha essa estética medieval e ritualística, mantendo a identidade visual do Vulthum: fria, misteriosa e carregada de simbolismo. Em resumo, The Tyrant Tale é mais do que um álbum — é uma jornada por um universo corrompido, onde cada faixa é um capítulo, cada riff é uma cela, e cada verso é um gemido vindo das masmorras da alma.
The Tyrant Tale vai sair no velho continente ou só no Brasil, por enquanto? Como se diz no jargão futebolístico: não se mexe em time que está ganhando, né? A parceria continuou com a Drakkar Records e com o mesmo artista plástico que cuidou da artwork no Debut-CD. Além da versão em CD, existem planos para sair também uma versão em outros formatos como vinil ou fita cassete?
Shammash – Sim, The Tyrant Tale será lançado oficialmente no dia 11 de julho de 2025, mantendo a parceria sólida com a Drakkar Productions, que mais uma vez apostou na visão fria e conceitual do Vulthum. Como você mesmo disse — não se mexe em time que está ganhando. A Drakkar entendeu desde o início o espírito da banda, e nos oferece total liberdade artística, algo raro e essencial para manter a essência intacta. A arte da capa ficou nas mãos do Rodrigo Bueno, que já havia trabalhado conosco em Shadowvoid, e novamente conseguiu capturar visualmente a atmosfera decadente, medieval e opressiva do novo álbum. Já o layout do encarte foi desenvolvido por Pablo Rodrigues, que também foi responsável pelo encarte do primeiro disco e soube mais uma vez traduzir com precisão a identidade sombria e ritualística do trabalho. O álbum será lançado em CD pela Drakkar, e no mesmo dia, 11 de julho, será lançada também a camiseta oficial de The Tyrant Tale, em parceria com a Black Metal Store. Será uma edição especial, pensada pra quem vive o culto além do som — levando a arte também no corpo. Quanto à versão em tape, ela está confirmada com a Black Metal Store, mas ainda sem data definida. Assim que houver previsão, será anunciado oficialmente. Também existe interesse em lançar o álbum futuramente em vinil, possivelmente por um selo europeu, nos mesmos moldes do que foi feito com Shadowvoid. Mas, por enquanto, o foco é o lançamento em CD e o impacto inicial desta nova obra.
Em janeiro, de 2025, vocês disponibilizaram no canal do YouTube, da gravadora Drakkar Productions, um single/lyric vídeo da faixa Upon The Shores Of Eternity, com imagens obscuras, sombrias e maléficas numa estética preto/branco, que é uma marca registrada da banda. Assistindo o vídeo me remeteu ao expressionismo alemão e à banda tem essa lírica mais filosófica, né como um norte. Como foi a aceitação desse “videoclipe” e essa estética “mais fria” dos velhos filmes alemães, foi uma influência para fazer esse clipe?
Shammash – Essa pergunta é um deleite, mano — principalmente pra quem, como nós, enxerga o Black Metal também como uma arte visual, estética e sensorial. Sim, em janeiro de 2025 lançamos o lyric vídeo de *Upon The Shores Of Eternity* no canal da **Drakkar Productions**, e desde o início a proposta foi que ele fosse mais do que um simples vídeo com letra — queríamos que fosse uma extensão do universo sombrio da música. E pra isso, novamente contamos com o talento do **Pablo Rodrigues**, que já havia feito o clipe de *Under The Icons Of Mighty*, lá na era *Shadowvoid*, e que entende perfeitamente a atmosfera que o Vulthum exige. A recepção foi muito boa — tanto do público quanto da mídia underground. Muitos perceberam e comentaram exatamente o que você apontou: a influência clara do **expressionismo alemão** — aqueles filmes silenciosos, angulosos, perturbadores, com jogo de sombras marcante, onde o horror é mais psicológico e simbólico do que gráfico. Isso nos agrada muito, porque essa estética conversa diretamente com o som do Vulthum: é o que está nas entrelinhas, o que sussurra nas paredes, o que se esconde na sombra e jamais grita. O vídeo é todo em preto e branco, como marca registrada nossa, mas não é só por estilo — é por simbolismo. O preto e branco é atemporal, ritualístico, desprovido de distrações. Ele traz um clima frio, espectral, quase sepulcral. E nesse vídeo específico, as imagens escolhidas — sombras, siluetas, ruínas, figuras deformadas — ampliam a carga filosófica da letra. Upon The Shores Of Eternity fala sobre a transição entre mundos, sobre almas perversas caminhando entre os véus da realidade, sobre o fim da criação em seu aspecto mais metafísico. Nada mais justo que essa estética visual acompanhando o peso poético da canção. Acreditamos que esse tipo de abordagem visual — mais contemplativa e simbólica do que direta — comunica melhor a proposta da banda do que qualquer videoclipe tradicional. Não queremos aparecer, queremos que o ouvinte veja aquilo que está por trás do véu. O Pablo Rodrigues entendeu isso com precisão cirúrgica. E enquanto houver Vulthum, esse tipo de estética continuará guiando nossa manifestação visual.
Meu caro, você é uma pessoa como já citado no início dessa entrevista que está inserido dentro do submundo há muito tempo com bandas e como admirador também desse movimento metálico. Como você vê o Underground brasileiro atualmente? O que mudou para melhor, o que precisa mudar e o que continua igual?
Shammash – Essa pergunta é pesada e necessária, meu camarada. E vem de alguém que, como você bem apontou, vive isso há décadas — não como turista, mas como parte da fundação. O underground brasileiro é uma entidade complexa, cheia de contrastes. E mesmo com o passar dos anos, continua sendo um território onde a paixão verdadeira ainda sobrevive — apesar dos golpes do tempo, da tecnologia, das modas passageiras e da política cultural decadente do nosso país. O que mudou pra melhor? Sem dúvida, o acesso à informação e às ferramenta. Hoje uma banda pode gravar, mixar, lançar e divulgar um trabalho com muito mais autonomia. O que antes dependia de carta, fita e xerox agora pode ser feito com um celular e um computador. Isso abriu muitas portas, principalmente pra bandas de regiões que antes estavam à margem até mesmo do underground. Também vejo que há mais selos sérios, zines ativos e uma rede de colecionadores que ainda mantém viva a chama do físico — vinil, CD, tape — algo que é vital pro metal extremo. O que continua igual? A luta. O descaso das mídias grandes, o amadorismo de certos organizadores, a falta de apoio estrutural, e o eterno “faça você mesmo” que, por um lado, nos fortalece, mas por outro também cansa. Quem é do underground no Brasil tem que ser resistente, porque aqui a cultura é descartável e o metal nunca teve incentivo. A cena ainda vive muito de troca, amizade, confiança e respeito — que são valores preciosos, mas que exigem compromisso real. E o mais importante: a essência ainda está lá, mesmo que soterrada em meio a muita futilidade virtual. Tem bandas novas surgindo com postura séria, tem veteranos ainda lançando material com alma, e tem público que ainda valoriza som extremo com verdade. Isso sustenta o submundo. O que precisa mudar? A principal mudança precisa vir da consciência das próprias bandas e headbangers. Menos vaidade, menos ego, menos competição idiota por curtidas. Underground não é vitrine — é culto. E precisa ser tratado com respeito, não com marketing barato. Muita gente quer fama instantânea, mas esquece que o verdadeiro reconhecimento vem da coerência e da entrega, não da autopromoção desenfreada. Também acho que falta mais união entre bandas, mais festivais bem organizados, mais apoio mútuo — e menos panelinha. O inimigo não é o outro banger, é o sistema cultural que nos ignora.No fim das contas, o underground brasileiro é resistente porque é feito de fé na arte, não de estrutura. E enquanto existir um zine como o The Old Coffin Spirit, uma distro séria, uma banda honesta… ele vai continuar respirando nas catacumbas do mundo moderno.

A cena brasileira com certeza está entre as melhores do mundo. Talvez pela dificuldade de ter que fazer tudo na raça e pela paixão pelo metal seja o diferencial de nossas bandas. Exemplo não falta né? A cena mineira dos anos 1980 e toda história por trás da Cogumelos Records e bandas como: Sepultura e Sarcófago, são referências mundiais e ainda tem o lendário Sarcófago e tantas outras. O problema da cena, é como você citou: panelinhas e muitos mimimi em redes sociais. E muitas bandas/músicos comportando-se como rock star. Fanzineiros e pessoas envolvidas com webzines, investem no site, tem custo para manter um site ou Zine impresso e distro. Também gastamos grana e tempo, pesquisando para fazer uma entrevista legal, resenha de um CD ou show e algumas bandas não tem a capacidade nem de compartilhar em suas redes sociais ou divulgar com seus contatos, uma entrevista ou resenha deles próprios, cara. Mas enfim, algumas bandas brasileiras tem te chamado atenção e você pode nos dizer algumas que você tem escutado?
Shammash – Olha, mano… apesar de todo o respeito que tenho pela história da cena brasileira — que é indiscutivelmente rica, intensa e cheia de nomes lendários como Sarcófago, Sepultura, Mystifier, Sextrash, Holocausto, Mutilator, Spell Forest e tantos outros — eu, sinceramente, não acho que hoje ela esteja entre as melhores do mundo. Digo isso com humildade, como alguém que vive e respira o underground há décadas. O que vejo é que ainda falta maturidade em vários aspectos da cena atual. Tem muita banda surgindo, sim — mas em muitos casos, sem consistência, sem preocupação com identidade sonora, sem conceito definido. A busca por soar “extremo” ou “veloz” muitas vezes atropela o mais importante, que é ter algo a dizer. E essa falta de coesão enfraquece o impacto da obra como um todo. Também percebo que ainda há muito ego inflado, muita atitude de “rock star de rede social”, pouca troca verdadeira entre bandas, público, zines e selos. Como você mesmo falou, fanzineiros investem tempo, grana, pesquisa, dedicação, e muitas bandas simplesmente não se dão ao trabalho de compartilhar ou divulgar esse esforço. Isso é grave, porque o underground vive da reciprocidade. Se cada um só olhar pro próprio umbigo, a cena não se sustenta. Por outro lado, há bandas que vêm se destacando com trabalhos sérios, bem estruturados e com alma. Algumas que tenho escutado e que me chamaram atenção:
Vazio – com uma identidade urbana, obscura e muito própria. Um dos grandes nomes da atualidade.
Warforged – rispidez bem canalizada, com um som marcante e firme.
Domus Dei Satanae – carregado de intensidade e devoção, com um peso ritual forte.
Absyde– som direto, profano, com melodías bem dosadas.
Rites Of Passage – sonoridade melancólica e bem construída.
Vobiscum Inferni – cru, verdadeiro e com essência do culto.
Mork Visdom– muito bom gosto estético e sonoro, mantendo uma linha obscura, sinfônica e introspectiva.
Carpatus – uma entidade já consagrada, que continua entregando qualidade e frieza em cada lançamento.
Essas bandas mostram que a essência ainda vive, apesar dos ruídos e distrações que cercam o cenário atual. O que falta, muitas vezes, é menos vaidade e mais verdade. Menos pressa e mais profundidade. Se a cena conseguir se reconectar com esses valores, o Brasil pode voltar a ser não só lembrado pela sua história — mas também respeitado pelo seu presente.
O headbanger brasileiro tem um problema não é todos, mas uma parcela deles. Aquele complexo de vira-latas. Prefere pagar 300,00 pila em um vinil importado de banda gringa e reclamam para pagar 45,00 em um CD de bandas brasileiras ou reclamam para pagar 50,00 reais em um show com bandas do submundo nacional, mas não reclamam em pagar 700,00 ou até mais em show gringo. Você mora em Portugal e tem contatos na Europa. Como é realmente a cena no velho continente? Todo músico daqui sonha em tocar na Europa, que no velho mundo tudo funciona por aí é mais fácil “viver de banda financeiramente” e eu não sei se é bem assim (…)
Shammash – Essa pergunta é um acerto no alvo, meu irmão. Porque toca numa ferida que muita gente prefere ignorar: o tal complexo de vira-lata que ainda existe em parte do público brasileiro. E, como você bem disse, não são todos — mas é inegável que muita gente ainda valoriza o que vem de fora só por ser importado, e menospreza o que é feito aqui, na raça, no sangue. É frustrante ver gente pagar R$300 num vinil de banda gringa e reclamar de R$45 num CD nacional — ou pagar R$700 num festival de banda internacional e chiar pra desembolsar R$50 num show de três bandas brasileiras que estão dando o sangue. Isso diz muito sobre o que a gente ainda precisa evoluir culturalmente como público, como cena e até como músicos. Agora, vivendo em Portugal, e tendo um olhar de dentro da cena europeia, posso afirmar: não é o paraíso que muitos pensam. Sim, há mais estrutura, festivais organizados, casas com som de qualidade, selos atuantes e acesso facilitado ao material físico. Mas, por outro lado, o público já está saturado de oferta— o que, muitas vezes, resulta em menos envolvimento emocional. A relação com a música é mais de consumo do que de devoção, com exceções, claro. Sobre viver de banda, é difícil em qualquer lugar. Mesmo bandas com estrada e nome penam pra fechar turnês que paguem os custos. A ideia de que só por estar na Europa tudo se resolve financeiramente é ilusão. Aqui também tem noites vazias, logística cara, e uma cena que, em muitos casos, exige mais do que simplesmente fazer um som pesado — exige organização, conexão, e presença constante. Mas uma coisa que eu vejo como muito positiva por aqui, especialmente em Portugal, é o espírito de colaboração. Não sinto essa competição mesquinha entre bandas. Há um senso mais claro de que todo mundo precisa crescer junto pra cena prosperar. Vejo músicos ajudando uns aos outros, zines sendo respeitados, produtores comprometidos. Ainda é underground, ainda é difícil — mas o clima é outro. Existe mais maturidade coletiva, mais cultura voltada ao Metal como forma de vida, não só como produto de consumo. E talvez seja isso que falte no Brasil: uma mentalidade menos competitiva e mais consciente. Se cada um focasse menos em brilhar sozinho e mais em fortalecer o culto como um todo, a cena brasileira — que tem talento de sobra — estaria em outro patamar. No fim das contas, o que mantém qualquer cena viva, em qualquer canto do mundo, é respeito, entrega, e amor verdadeiro à arte. E isso não se compra em loja gringa.
Gostaria que você comentasse em poucas palavras, eu sei que é difícil, sob suas histórias e passagens por bandas como: Mythological Cold Towers,Templum, Guehenom, Spell Forest e Unholy Outlaw (…)
Shammash – Falar sobre essas bandas é falar sobre partes fundamentais da minha trajetória — cada uma representa um ciclo distinto, com experiências intensas e profundas. No Mythological Cold Towers, banda da qual ainda faço parte com muito orgulho, construí uma ligação que vai muito além da música. É uma irmandade sólida, onde o respeito mútuo e a entrega ao Doom Death Metal épico seguem vivos. Tive — e sigo tendo — a oportunidade de tocar em diversas partes do Brasil e fora dele, levando essa atmosfera gélida e monumental a públicos que realmente sentem a essência da proposta. O aprendizado com os membros da banda foi — e continua sendo — enorme. Tamanho é o vínculo, que tenho uma tatuagem com as iniciais do logo original da banda*— uma marca na pele que representa o quanto essa jornada significa pra mim. Com o Templum, vivi um culto fechado, niilista e hermético. Poucos registros, mas todos impregnados de obscuridade sincera e propósito espiritual. Uma entidade onde o silêncio era parte do ritual. No Spell Forest, mergulhei numa fase melódica e ritualística do Black Metal, que me fez explorar outras atmosferas. Foi uma passagem breve, mas com muito conteúdo. No Unholy Outlaw, vivi uma conexão mais direta com o Doom Metal tradicional, pulsante e de atitude — sempre com autenticidade e essência crua. Todas essas experiências — passadas e presentes — me moldaram, e o Vulthum é a convergência disso tudo, a frieza do Templum, o peso espiritual do Mythological, a melodia infernal do Spell Forest e a firmeza do Unholy.
Shammash, você é um admirador “da suprema arte negra” faz/fez partes de bandas de black metal e teve passagens por bandas clássicas de doom metal como o grande Mythological Cold Towers (uma das melhores no estilo no Brasil, na minha humilde opinião) e Unholy Outlaw, que vai numa vibe mais epic doom metal. Isso posto, gostaria que você divagasse em poucas palavras (…) O que você acha da Trindade inglesa dos anos 90 composta por My Dying Bride, Anathema e Paradise Lost, que de certa forma trouxeram visibilidade ao estilo fúnebre e o arrastar de correntes? Black Metal qual dessas escolas te atraia ou quais te influenciaram como músico e metalhead: A cena nórdica, Helênica ou sul-americana, e tem a cena australiana que eu conheço pouco.
Shammash – Cara… essa “Trindade inglesa” dos anos 90 — My Dying Bride, Anathema e Paradise Lost — foi essencial pra quem, como eu, sempre buscou a melancolia dentro do peso. Cada uma dessas bandas, ao seu modo, ajudou a expandir o que o Doom/Death podia ser. O My Dying Bride, com toda aquela dor arrastada, violinos fúnebres e letras poéticas, foi e continua sendo uma enorme influência. O Paradise Lost nos primeiros álbuns era um verdadeiro colosso de trevas e riffs decadentes. E o Anathema daquela fase inicial é pura desolação — o “Serenades”, por exemplo, ainda bate fundo até hoje. Essas bandas me marcaram não só musicalmente, mas espiritualmente. Elas mostram que o peso não precisa ser só raiva — pode ser tristeza, vazio, contemplação do fim.Agora, falando em Black Metal, sempre fui influenciado por várias vertentes — mas com certeza o que me marcou mais foi a escola nórdica. A cena norueguesa dos anos 90 moldou muito da minha base: Darkthrone, Mayhem, Carpathian Forest, Gorgoroth, Taake, Immortal… tem uma frieza, uma crueza ali que me capturou pra sempre. Mas também não posso deixar de citar o impacto da cena sul-americana, que é mais bestial, crua, primitiva — Sarcófago, Mystifier, Vulcano, Holocausto, Mortem (Peru), Hades, Goat Semen… isso é fogo puro. É algo mais espiritual e agressivo, menos polido e mais visceral. A cena helênica também teve sua importância — Rotting Christ, Varathron, Necromantia, Zemial, Vorphalack — bandas com uma aura mais ritualística, quase mística, e que misturavam melodia e ocultismo com muita elegância. Sempre admirei esse equilíbrio. A australiana confesso que conheço pouco, mas o que ouvi de Nazxul, Austere, Drowning the Light tem aquela neblina depressiva que também me atrai. No fim, o que sempre me chamou atenção foi a atmosfera. Tanto no Doom quanto no Black Metal, não é sobre técnica ou velocidade — é sobre criar uma aura, um mundo paralelo, onde o som vira espelho da alma. É isso que busco até hoje — tanto como ouvinte quanto como músico.
Shammash, como já comentamos, você está morando/residindo em Portugal. Você tem contatos com os subterrâneos da cena portuguesa? Eu conheço o Moonspell desde 1993 é é uma banda que eu gosto muito e já tive o prazer de vê-los ao vivo em Curitiba – Paraná, e foi incrível. Claro que conheço outras bandas portuguesa como: Decayed, Candle Serenade, Corpus Christii e Filii Nigrantium Infernalium, além do festival: SWR Barroselas Metal fest e inclusive se não estou enganado, o Mythological Cold Towers e Headhunter DC, já tocaram neste festival português. O que você pode nos dizer mais da cena portuguesa (…)
Shammash – Sim, estou morando em Portugal há alguns anos e, naturalmente, acabei me conectando com parte da cena underground portuguesa, que é muito mais ativa, séria e coesa do que muitos imaginam. Você citou bandas essenciais — e sem dúvida, Moonspell é o maior expoente. Desde os anos 90, eles representam Portugal com identidade, qualidade e postura. E o mais admirável é que os portugueses valorizam muito suas bandas, especialmente o Moonspell, que é respeitado não só como grupo musical, mas como um símbolo cultural do país. Esse orgulho e apoio local fazem uma grande diferença — algo que falta em muitos lugares. Bandas como Decayed, Corpus Christii, Candle Serenade e Filii Nigrantium Infernalium é outras mais novas como, Gaerea e Anzv, também são grandes nomes da cena extrema local, mantendo viva a essência do black metal com personalidade e persistência. Sobre o SWR Barroselas Metal Fest, é um dos maiores festivais do estilo na Europa. E sim, como você lembrou bem, o Mythological Cold Towers tocou lá em 2012, ao lado de gigantes como Immortal, Candlemass, Asphyx, Angel Witch, Hypocrisy, Whiplash e os irmãos brasileiros do Woslom. Foi uma experiência marcante, onde o público português demonstrou total respeito e entrega. E vale destacar que, apesar de ser um país pequeno, Portugal tem muitos festivais com ótima estrutura, som de qualidade, organização profissional e, em muitos casos, preços acessíveis. O underground aqui é tratado com seriedade — e isso reflete diretamente na qualidade dos eventos e na postura do público. No fim, é uma cena que valoriza o que é feito em casa, apoia os veteranos e acolhe novas bandas com respeito. Um exemplo de como o tamanho do território não define a grandeza da cultura.
Meu caro, foi uma honra ter esse bate-papo com a vossa pessoa. Sou um grande admirador do seu trabalho e das bandas que você fez ou faz parte. Suas considerações finais e sucesso na sua vida profissional e familiar aí em Portugal. Abraço e força-sempre! Unidos somos fortes!
Shammash – Foi uma honra participar desse bate-papo e poder compartilhar um pouco da minha trajetória e pensamentos. Fico feliz em saber que há pessoas como você que acompanham, valorizam e fortalecem a cena — isso é essencial para que o underground continue vivo e pulsante. Desejo força e resistência a todos os que trilham esse caminho com sinceridade e paixão. Que a chama da arte obscura nunca se apague dentro de nós. Agradeço o apoio de sempre — e também deixo aqui um grande abraço e votos de luz e proteção à minha filha, minha maior inspiração. E para quem acompanha o Vulthum, o novo álbum “The Tyrant Tale” já está entre nós, lançado oficialmente pela Drakkar Productions Brasil. Ouçam com atenção, deixem-se envolver pelas sombras… e espalhem o culto ao tirano!