

Conversamos com Cavalcanti, vocalista da banda de black thrash metal Infernal Atröz, que nos revelou um pouco mais sobre a trajetória da banda e seus planos futuros.
Saudações meu caro amigo! Seja bem-vindo ao Portal The Old Coffin Spirit. Gostaria que você fizesse uma breve apresentação da banda e como surgiu a ideia de formar uma banda de black thrash metal com letras em português?
Cavalcanti – Salve, meu irmão Walter, saudações infernais ao portal *The Old Coffin Spirit*. A infernal Atröz surgiu em 2022 por ideia minha e de um amigo(Herege Infame), sempre escutávamos bastante Black Thrash, então como não tinha esse gênero barulhento em Blumenau, tivemos a ideia de montar uma banda de Black/ Thrash na cidade. E como sempre ouvíamos: Flageladör, velho, Orgia Nuclear, Arma, Selvageria, Primitive e Thrashera. Fomos influenciados a fazer nossas músicas em português, e como muita pessoas acabam usando para esse gênero mais em inglês, então para gente foi uma forma influência, desafio e orgulho, de fazer nossos sons na nossa língua mãe, e até aqui acredito que foi bem aceito por todos. Com a ideia da banda definida, para completar o quarteto convocamos: Anarco infrator para o baixo e Face of Darkness para a bateria. Que também gostavam muito dessa pegada Speed/Black Thrash em português, então tudo casou como uma luva para definirmos nosso som da forma que é hoje.
O Anarco Infrator no baixo e o Face Of Darkness na bateria recentemente se juntaram à banda, correto? Se não me engano, o Renegade 666 também entrou para tocar guitarra há pouco tempo. Como essa nova formação tem impactado a parte musical da banda? Que influências esses novos integrantes trouxeram para as composições?
Cavalcanti – Na verdade, começamos em Duo a banda(eu e Herege Infame) a proposta inicial era eu na guitarra e vocal, herege infame na bateria. Porém víamos dificuldade em compor assim pelo fato de faltar mais o peso de um baixo nas músicas, então entrou para o baixo o Anarco infrator, logo em seguida Face of Darkness que é minha companheira, se ofereceu para a bateria, então reformulamos tudo. Eu no vocal, Herege Infame sai da bateria para assumir a guitarra, Anarco fica no baixo, e Face of Darkness assume de vez a bateria, posso assumir que essa é a formação clássica da banda. Após 2 anos de banda, nosso irmão Herege Infame, por motivos pessoais e seu casamento, decide deixar a banda (forma amigável) conversamos e entendemos que seria difícil continuar com ele na banda, porque já estava morando em outra cidade. Então surge *Renegado 666* que já era amigo de todos da banda, ele seria uma segunda guitarra futuramente, mas com a urgência de termos um novo guitarrista, Renegado 666, foi competente em pegar todas as músicas de uma maneira bem rápida, menos de 3 meses já estava fazendo apresentação ao vivo com a banda, e hoje é o nosso maníaco da motoserra. As grandes influências que esses músicos trouxeram para a banda, posso dizer de uma maneira bem resumida, primeiramente todos da banda curtem muito o heavy metal clássico, isso já ajuda a gente ouvir bastante para se inspirar no bom e velho metal old School, mas cada um tem sua preferência, eu vejo que face of Darkness traz muita influência de Heavy/Speed clássico, Anarco Punk traz muito o Metal Punk, Renegado já trouxe bastante influências do Thrash Metal matador, como Sodom, Slayer, sepultura Old, eu já gosto de um Black/Thrash violento como Vulcano, Alastor, Deathammer. As músicas novas da banda nessa nova formação até o momento foram duas: *Black Thrash Massacre* e *Necromância*, claramente com os exemplos que citei sobre a referência de cada membro é possível notar bastante nos riffs destas novas composições.
Pois é, amigo, realmente não é fácil manter uma formação consistente de uma banda no submundo da música. Há vários fatores a considerar, como trabalho e família. Em 2024, vocês lançaram o single da faixa “A Noite da Caçada” e, logo em seguida, a demo tape intitulada Infernal Atröz, que conta com 5 faixas de um poderoso e impactante black thrash metal satânico. Você poderia nos contar mais sobre esse lançamento? Como foi a produção, onde foi gravado, quem ficou responsável pela arte da capa e como o público recebeu esse primeiro material infernal?
Cavalcanti – Quando estávamos com 2 anos de banda ensaiando e fazendo algumas apresentações, pensamos em lançar nosso primeiro single, escolhemos *A noite da caçada* por duas questões, por ser minha primeira letra pra banda, e também pelo fato dela ser mais simples de tocar, mais direta, mais rápida, e uma música que sempre percebemos que no ao vivo, tinha uma energia legal com o público, as pessoas cantavam o refrão sem mesmo não estar gravado kkkk. Quando resolvemos gravar foi tudo de forma caseira mesmo, herege tinha um mini Studio home na casa dele, uma interface e alguns equipamentos que pensamos, por que não? A intenção era ir para um Studio profissional, porém preferimos arriscar também, herege tinha mais conhecimento sobre o assunto, então ele foi nosso produtor kkkk, gravamos as guias do ensaio, depois fomos gravando no metrônomo cada instrumento separado por último seria a voz, foi um processo cansativo, demorado, foram meses até a gente realmente fazer algo que soasse bom para nossos ouvidos, então no dia *02 de fevereiro de 2024* lançamos o single *A noite de caçada*. Apesar da forma mais simples e honesta, os feedbacks começaram a aparecer, pessoal elogio os riffs as letras, o refrão que grudava na cabeça, e surge até um convite para tocar em Curitiba, nossa primeira vez fora do estado de Santa Catarina. Então a gente motivado pelo single decidimos fazer nossa Demo, auto intitulada *Infernal Atröz*, escolhemos algumas faixas e como agora tínhamos mais noção de gravação, foi um pouco mais fácil gravar as outras músicas seguindo o padrão do single, e podíamos melhorar coisas que depois a gente notou que faltou no mesmo. queríamos mais acelerado, mais cru! Para a capa convidamos o brother, Caio Barkargy, que fez como queríamos, que relembrasse aquelas capas bem toscas do Metal old School, mas que fosse agressivo visualmente. Com mais faixas apresentadas podíamos apresentar melhor nosso som na Demo, então quando lançamos em todas as plataformas digitais, os feedbacks foram a maioria positivos, nos rendeu bastante shows, mais uma vez convite para tocar em Curitiba, e acredito que não agrada todo mundo, mas posso dizer que as pessoas que gostam dessa pegada de Black Thrash sempre deixa bem destacado que nosso som é violento, e na demo o público gosta também por ser direto, sem frescura, é frenético do início ao fim. A demo foi lançada dia 27 de junho de 2024.
Eu realmente gostei dessa demo tape! Ouvi no Spotify e achei bem agressiva, suja e violenta. É desse jeito mesmo que o metal negro tem que ser! Existe a possibilidade desse artefato ganhar uma versão física? Acho que ficaria perfeita no velho formato analógico de uma fita K7.
Cavalcanti – Muito obrigado, irmão. Sem dúvidas, a gente pensa sim em fazer uma versão física e realmente no K7 ficaria muito fudido, esse ano pretendemos trazer bastante novidades, e com certeza isso e mais novidades relacionado a gravação está nos planos da banda e como prioridade.
Podemos entender que uma das novidades é um álbum completo da Infernal Atröz. Existem planos para a banda lançar um álbum de longa duração? Como está o andamento do processo de criação desse trabalho?
Cavalcanti – Pode sim, (hahaha) na verdade agora com formação definida, músicas novas, a gente quer muito trabalhar no nosso Full, esse ano de 2026 já começamos a se organizar para isso, não posso ainda falar uma data exata, mas posso dizer e garantir que esse ano vai ter coisa nova, e que estamos focado 100% para lançar nosso primeiro Full, a ideia dessa vez é fazer não de forma 100% independente, já temos um Studio em mente que conversamos sobre a ideia, e também alguns parceiros que também vão nos ajudar na parte de mixar e masterizar o nosso som, mesmo que seja de uma forma independente, vai soar mais profissional que a demo, e também alguns selos já entraram em contato, quem sabe pode rolar algumas parcerias, contatos sempre são bem vindos.
Olha que boa notícia! Esse futuro trabalho terá músicas inéditas ou vocês vão aproveitar as músicas já gravadas na demo tape? Até porque a demo tape só saiu nas plataformas de streaming, não é mesmo?
Cavalcanti – Sim, terá músicas inéditas, até vamos regravar as músicas da demo, a ideia é lançar de 9 a 10 faixas, 100% autorais, sem cover, será um material para as pessoas conhecerem mais nossos sons. E sim por enquanto só saiu nas plataformas de streaming, mas estejam certos que nosso próximo material com certeza vai sair dessa vez físico também.
As duas músicas novas que a banda compôs recentemente com essa nova formação, intituladas “Black Thrash Massacre” e “Necromancia”, serão lançadas como singles nas plataformas de streaming? Poderia nos dar uma ideia de como são essas faixas e quais influências a banda utilizou para criar seus hinos satânicos?
Cavalcanti – Sim, iremos soltar uma dessas músicas novas como single, que com certeza vai estar disponível nos streaming. Sobre como está soando, é natural que com a mudança de um guitarra para outro as composições venham sendo mais diferentes do que no início, Black Thrash Massacre ao meu ver está soando como nossa música mais rápida e agressiva, todos os riffs são acelerados, ela não tem pausa é o puro Speed/Black Thrash Satânico, com bastante elementos de Thrash, Speed, e aquele pé dentro do Black Metal, uma música que curto muito cantar, já Necromancia, eu diria que é mais voltada aquela primeira onda do Black Metal, é mais arrastado, mais peso e menos velocidade, até incluímos uma pegada Thrash nela, mas a música em si lembra muito aquela linha Hellhammer, Celtic Frost e um pouco de Venom, bem firme nessa linha. As influências da banda são sempre voltadas ao metal old School, escutamos um pouco de tudo, desde de heavy metal oitentista, a metal extremo, todos da banda gostam bastante da cena nacional, o que acaba ficando fácil a nossa conexão e afinidade na hora da criação, então geralmente as bandas que gostamos a maioria também curte, então as influências de bandas conforme já citei acima, nossa maior influência mesmo eu diria que são a cena nacional.
Recentemente, entrevistei a banda catarinense de death thrash metal, Corrosive Nails, que é bastante influenciada pela cena nacional. Tive a oportunidade de testemunhar bandas do underground brasileiro sendo impactadas por grupos do nosso respeitável submundo. Não tenho nada contra as bandas estrangeiras, mas fico realmente satisfeito com essa nova geração do underground brasileiro. Nos anos 90, eu nunca imaginava que isso aconteceria. Como você enxerga essa questão das plataformas de streaming? Você acredita que isso é benéfico ou prejudicial?
Cavalcanti – Sendo bem honesto contigo, Walter, eu acredito que 50% a 50% entre o bom e ruim, deixa eu tentar explicar meu ponto. Não sou tão velho sou de 1996, então eu ainda sou uma geração que pegou a fita, o começo do CD, e do extinto DVD, quando eu era moleque, por exemplo, eu pegava um CD do Iron Maiden e nossa, eu ouvia até enjoar, era mágico você colocar um CD de alguma banda pra ouvir e ter certeza que você estava prestando atenção em cada detalhe, cada riff ou Power acorde, até mesmo na velocidade e viradas da bateria,(kkkkk) então a sensação do físico pra mim é mais nostálgico e mágico por isso. Até hoje compro meus CDs de bandas que gosto ou que acabo conhecendo em rolês. As plataformas digitais não vou ser hipócrita de dizer que não consumo, tem a parte boa de você conhecer mais bandas, compartilhar sons e chegar para mais pessoas, você conhecer a discografia de uma banda que você curtiu, tudo se torna mais acessível, porém como é um infinidade de material e bandas dentro da plataforma, perde aquela magia que citei no início, de você pegar algo pra ouvir com prazer mesmo, hoje está muito fácil, antes você ouvia um CD todo para dizer se gostava ou não, hoje basta 3 faixas você troca para a próxima banda e vai, então ao meu ver sempre vai ser essa dosagem de 50%, pode ser até papo de saudosista, mas até hoje prefiro sacar meus CDs quando quero ouvir meus sons e beber uma cerveja. (kkkkk)
Concordo com você sobre as plataformas de streaming. Você também gosta de fanzines impressos? Tem adquirido alguns recentemente? E quanto aos webzines, você acredita que ambas as mídias, a física e a digital, podem coexistir juntas na luta para divulgar o submundo?
Cavalcanti – Sim, curto bastante fanzine impresso, acho uma leitura necessária para quem quer conhecer um trabalho de uma banda, ou até mesmo consumir para ficar ligado em alguma curiosidade ou conhecer mais bandas, sempre que posso compro, e apoio às pessoas que se dedicam a esse trabalho, sobre relação à web Zine, também acho digno e justo, a internet em si é uma ferramenta que todas as tribos usam, no metal não seria diferente, o bom do web Zine é que você pode compartilhar para ter mais o alcance das pessoas, enquanto o físico somente quem comprou, então sim, o web Zine pode andar lado a lado sem problemas nenhum, acredito que dentro da cultura underground que gostamos, qualquer maneira de divulgação, notícia, entretenimento e principalmente reconhecimento é algo que sem dúvidas agrega demais dentro do Metal nacional, as pessoas infelizmente hoje estão preguiçosas e acabam querendo informações rápidas de minutos, o que pra mim torna os Zines mais resistências, já que hoje poucos se dedicam a uma boa leitura.
Sim, eu acredito que o Zine registra aquilo que acontece no verdadeiro underground durante um determinado período. Enquanto as revistas estão voltadas para o mainstream e o mercado, o fanzine se dedica a resgatar e apoiar bandas menos conhecidas que fazem metal por paixão. Fazer heavy metal por amor não quer dizer que a banda tem que tocar por um sanduíche de mortadela e uma cerveja barata. Como você analisa essa questão, o que uma banda do underground deve fazer para ser real e não ser poser?
Cavalcanti – Excelente pergunta, eu defendo que para uma banda ser real, primeiramente ela tem que fazer som por amor, sabemos da dificuldade, falta de apoio, falta de reconhecimento, panelinha, gente que vão te odiar sem te conhecer, e falsidades, tudo isso já vem no pacote, mas se a gente for abaixar a cabeça para qualquer coisa aí que não vamos conseguir ter nada, banda tem que ter postura, isso já inclui também dos membros, tem que se manter a humildade, e saber a hora que vai tocar, e a hora que vai apoiar uma outra banda que vai tocar no lugar da sua, muita gente só vai em rolê quando sua banda vai tocar, eu acho isso muito poseragem e sensação de estrelismo. (kkkkk). Mas pra mim o principal mesmo é levar sua banda a sério, não se apresentar drogado achando que vai fazer o melhor show da vida, não tocar bêbado a ponto de esquecer a própria música, e o que mais me incomoda hoje em dia é ridicularizar sua própria banda para virar meme na internet e consequentemente ficar famoso através disso, isso pra mim além de ser ridículo, não contribui de forma nenhuma para a cena underground, banda tem que ter som, postura, humildade, e principalmente muito sangue no olho para tocar em qualquer lugar que for e você puder ir.
Pois é, não faz sentido defender a extrema direita e ainda se considerar true metal, certo? O underground mudou, isso é um fato! O radicalismo sem consciência e com um discurso simplista não é aceitável. Vejo muitas pessoas comentando nas redes sociais que metal e política não se misturam. Isso mostra que não conhecem a história do Rock! É importante conhecer a trajetória desde o início e prestar atenção às letras das músicas das bandas. Eu não apoio políticos! O rock representa liberdade! Sempre esteve ao lado dos oprimidos e sempre teve uma postura progressista. O que quero dizer é que o radicalismo sem consciência não leva a lugar algum. Sim, devemos preservar certos códigos que sempre existiram no metal, e valorizar as raízes, certo? Gostaria de saber qual é a sua opinião e a posição da banda sobre esses temas tão polêmicos no underground.
Cavalcanti – Concordo 100% contigo, não dá pra ser headbanger e querer vim defender partido de extrema direita, e vim com ideias de cunho cristão, como machismo, racismo, que sabemos muito bem que essas ideias inicialmente vem da igreja. Minha visão é que sempre foi usado política, principalmente no Metal, bandas sempre fizeram letra de protesto contra governo A e governo B, Metal sempre foi liberdade, infelizmente as pessoas confundem essa “liberdade” como fazer tudo que eu quiser, e acabam trazendo pensamentos e ideologias que ao meu ver não tem e nunca teve presente no Metal, infelizmente aqui principalmente na região Sul, as pessoas tem uma mania de querer curti Metal e nao entender a história, de onde vem, como surgiu, o que defende, por qual instituições foi perseguido, quem tentou censurar quando surgiu, se ao menos as pessoas procurassem entender um pouco mais da historia do Rock/Metal, elas iam enteder que não é só um som pesado pra bater cabeça, é protesto, é revolta, é anti moda, é anti música comercial, é união de pessoas que amam o som pesado e levam isso como estilo de vida, como indentidade de seus demônios ocultos dentro de sua cabeça, quando eu vejo alguém que diz que curte Metal, mas vem com ideias fascistas e principalmente sem caráter, eu mesmo me afasto, porque hoje em dia as pessoas estão mais visualmente no Metal que ideologicamente, por isso até a internet ficou perigoso conhecer pessoas, porque antes era massa você ter bastante conhecidos no Metal, hoje em dia se tornou perigoso, ninguém conhece mais ninguém, então tem que está sempre de olhos bem abertos.
Tive a oportunidade de vê-los ao vivo algumas vezes, mas, por conta dos horários, não conseguia chegar a tempo para as apresentações de vocês. Em duas ocasiões, cheguei apenas para a última música. Felizmente, no último trimestre de 2025, consegui assistir ao show de vocês em São José, na Grande Florianópolis, e foi uma apresentação intensa, impactante, agressiva e satânica. Para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ver a Infernal Atröz ao vivo, você poderia descrever para nossos leitores o que um fã de metal pode esperar de uma apresentação de vocês?
Cavalcanti – Muito grato por você ter visto e gostado do nosso trabalho, bem, o que todo Metalhead e amante do metal veloz, vai encontrar nas nossas apresentações, vai ser peso, velocidade, blasfêmia, um culto dedicado a mão esquerda, nosso som geralmente não é muito técnico, temos preferência por aquele repertório mais direto, sujo, e agressivo, letras vomitadas em português, e geralmente muita comunicação com o público, temos nossa entrega de palco, seja em lugar pequeno ou grande a energia insana é a mesma, apesar de que eu particularmente sinto que em lugares menores o nosso som é mais aceito é onde vemos os pescoços se destruírem num bate cabeça.(hahaha). O show da infernal Atröz é isso, é para quem gosta de música rápida e pesada, quem geralmente prefere essa pegada mais moderna no metal geralmente não vai se identificar, porque nossa essência sempre vai ser Old School.
O show de vocês realmente é isso: metal negro rápido, agressivo e caótico. Além disso, todos vocês utilizam corpse paint e a estética de couro e cinto de balas, o que resulta em um visual muito impactante e blasfemo. Você acredita que uma banda com posturas e temáticas satânicas e ocultistas precisa adotar esse visual mais marcante para transmitir sua mensagem e ideologia?
Cavalcanti – Eu acredito que não, o visual claramente é pra chamar atenção, seja qual banda for, a estética conta muito pra quem curte esse estilo. Quando uma banda usa um war/Corpse Paint, ela tá passando uma resistência e uma identidade, dentro daquele estilo. A mensagem pra mim vai ser transmitida de acordo com o que a banda vai apresentar ao vivo, eu acho muito fácil fazer qualquer letra sem sentido, colocar “Satã” em alguma frase e simplesmente usar blasfêmia de forma vazia. O que pra mim deixa a banda com postura é se o som é bem executado, se ela vai trazer alguma filosofia em suas letras, que vai te fazer questionar sobre esse mundo caótico que vivemos, e qual a ideologia que essa banda quer trazer com ela? Pra mim a ideologia de Satanismo, é liberdade da falsa moral e hipocrisia cristã, e principalmente você se questionar sobre tudo, ser satanista é ser um opositor de tudo aquilo que vai te prender e te julgar, então ao meu ver conta mais a banda ter esses elementos que só visual, o visual pra mim é apenas um elemento a mais, não sendo necessariamente o principal.
No show do Infernal Atröz que tive o prazer de assistir, percebi que você é bastante comunicativo e está sempre explicando as letras e a postura da banda. Achei muito interessante você usar falas progressistas no discurso da banda. Sem citar partidos ou mesmo puxar para o lado direito ou esquerdo, mas um discurso libertário. Posto isso, é fato que você, o frontman da banda, é a figura mais importante, todos na platéia estão prestando atenção em você. Você não esconde sua admiração pela umbanda e kimbanda. Como você interpreta isso em sua vida? É uma filosofia de vida ou uma prática religiosa? E aproveitando o gancho, gostaria de saber se todos na banda seguem essa corrente de religião africana?
Cavalcanti – Bem, na infernal Atröz eu passo apenas o que acreditamos “respeito, atitude e vergonha na cara”, muitas vezes a forma que me comunico com o público é natural, sempre faço questão de agradecer a todos que colou no rolê, produtores e bandas, falo sim muitas falas progressistas sem puxar lado político, porque acredito que dentro do nosso som, não a necessidade de ser lado A ou lado B, mas claro que deixo bem claro que não somos apoiadores de escórias que tentam excluir ou diminuir seja da forma que for. Como frontman eu entendo que não estou apenas pra cantar as músicas da banda, estou também para passar uma mensagem, incentivar quem acredita no underground, e principalmente mostrar que não estamos querendo ser famosos ou como muitos querem ser “metal blogueiro”, meu objetivo como vocalista é atingir a mente das pessoas, fazer elas entenderem o que passamos como banda, o que acreditamos como ser humano, e o que nossas letras abordam, já que é em português e temos orgulho de fazer letras no nosso idioma. Sobre a minha religião, somente eu tenho chão na matriz africana e indígena, todo os membros respeitam, inclusive alguns visitam meu terreiro, mas somente eu mesmo faço parte, a forma que expresso dentro do palco é as vozes que se calaram um dia devido a forte pressão cristã, de demonizar tudo que vem da África e dos povos originários, as vezes ouço comentários como “mas o que isso tem haver com Black Metal?” Mas essas pessoas não entendem que a feitiçaria, bruxaria, cultos aos mortos, ervas poderosas para remédios e feitiços, tudo isso já existia aqui no Brasil, com a chegada dos negros que foram escravizados, o culto apenas se potecializou, quem tira um tempo pra estudar as raízes da nossa terra, entende que tem mais magia pesada e sangue brutalmente derramado aqui, que muitas histórias européias. Então eu interpreto de forma respeitosa, exaltando a força da ancestralidade, trazendo em letras o culto do vivo e dos mortos, e sabendo que a proteção dos meus eu levo seja andando na rua, ou cantando em cima de um palco. “Quem me protege, não dorme” Laroyê!!!
O Black Metal é um movimento artístico é de combate às religiões e os dogmas cristãos imposta pela religião cristã/católica. Muitos metalheads não tem religião e são ateístas! Acredito que se você é contra cristianismo e seu maior ícone, Jesus Cristo, você é obrigado á acreditar no diabo, não é mesmo? Mas também entendo que “espiritualidade” é uma coisa e religião é outra. Espiritualidade é você tentar entender as energias em nossa volta e buscar estudar e aprender para evoluir como indivíduo neste universo que habitamos, sem ser marionete de religiões. Ocutan, é uma banda brasileira que segue a kimbanda e nunca escondeu esse posicionamento que a banda tem. Você segue à kimbanda e os outros integrantes seguem alguma outra corrente filosófica da mão esquerda?
Cavalcanti – Os outros integrantes pelo que conheço deles é basicamente assim, face of Darkness, sempre puxou pro lado pagão, acredita na força da terra, tem seus pedidos a Deusa lilith, e tem muito respeito pela Kimbanda. Por minha causa. O anarco infrator tem uma visão de Satanismo mais voltada para a sua vida e na satisfação de estar vivendo sem deuses e mestres, ele também tem visitado algumas vezes meu terreiro, e hoje busca contato com seu Exu acreditando na força da ancestralidade. Renegado666 é o clássico Ateu, não acredita em nada que não ver, ele sempre deixa claro que é contra o cristianismo, mais numa visão mais ateísta.
Você e sua esposa, Face Of Darkness, que é a baterista da banda, são nativos de Belém do Pará, correto? Como você percebe as diferenças entre a cena musical do norte e a do sul do Brasil? Quais bandas de ambas as regiões, que são apoiadas pela Infernal Atröz, você recomendaria aos nossos leitores?
Cavalcanti – Sim, somos do Pará, a Tamires (Face of Darkness) ela é da capital, Belém do Pará, eu já sou natural do nordeste do Pará, em Capanema. A cena do norte é uma cena diferente do sul, pelo que eu pude perceber, em alguns quesitos, no quesito bandas eu posso dizer que no norte as bandas são mais diretas e frenéticas, a maioria curte aquele Death/Thrash visceral, no sul galera gosta mais de bandas clássicas e técnicas, claro que isso é questão de gosto, no norte não deixamos muito crescer esse lance de banda Cover, no sul já é mais comum tocarem até em festivais, no resumo o norte eu vejo que as pessoas apoiam mais porque sabem que quando surge um evento, vai demorar um pouco até o próximo, então a oportunidade de estar presente quando tem um rolê legal, é geralmente mais presentes as pessoas, no sul como tem bastante coisa então as pessoas podem escolher para qual show quer ir, é difícil comparar porque tem toda uma questão geográfica, cultural e de posicionamento, no norte por exemplo é muito comum até hoje você ser cobrado em rolê por algo que fez, por tal camisa suspeita, se bateu em mulher, e até lance de ganguismo, dependendo da tribo que você anda, no sul o pessoal já é mais de boa, claro que eu pude perceber que a toda hora as pessoas querem distância de quem também faz alguma coisa que nao condiz dentro do underground, então nessa parte o público do sul é legal ver que muitos não querem ter essa fama de “racista e xenofóbico”. As bandas que apoiam a gente vou começar pelo sul já que a banda foi criada aqui: Orthorstat, Pain Of Soul , Anal Vomitation, Stygian, Bomba no porão , Culpadö, Cemitério dos vivos, Cruciate, Luciferiano , Alocer . Do norte eu já posso citar Disgrace And terror, Warparth, Mal Encarnado, Mandíbula , Mórbida escuridão , Exxxpurgo Letal , Nocturnal Bleed . Se eu esqueci alguma peço perdão kkk, mas tudo que citei é para todos os gostos, e são todas bandas que representam pra caralho quando tocam.
Sim, meu amigo, nosso país é imenso e cada região possui suas características únicas. Por exemplo, tenho diversos contatos na cena de Salvador, na Bahia, e eles me contaram que a situação por lá era bastante violenta e marcada por muito radicalismo, nos anos 1980 e 1990. Claro que, no norte e no nordeste, é mais difícil bandas gringas ou mesmo bandas do sul e do sudoeste do Brasil passarem por essas regiões, exatamente pela questão geográfica e fica muito caro e não viável financeiramente para um produtor local investir, acredito eu, né? Quando ocorrem shows, os headbangers comparecem em peso. Já no sul, temos grandes eventos com bandas do mainstream, bandas de segundo escalão e muitos shows de bandas locais do submundo. Então, são cenas diferentes. Aproveitando que estamos nesse assunto gostaria de saber o que você acha que melhorou na cena brasileira, o que poderia melhorar no Underground e o que continua do mesmo jeito?
Cavalcanti – Posso dizer que melhorou na cena brasileira, a forma como as bandas podem fazer seus matérias independentes, coisa que acredito que antes não era tão fácil assim, como citei acima a internet também tem seu lado bom, principalmente na divulgação. O que poderia melhorar na minha opinião é as conexões com as bandas e mais produtores e espaços para ter mais eventos e shows de forma geral, o que mais se ouvem seja aonde for é uma famosa “panelinha” com as mesmas bandas e pessoas envolvidas, eu entendo que quem organiza tem essa autonomia de escolher, mas deixar sempre o mesmo do mesmo, além de ser repetitivo é algo que não soma uma rotatividade entre a cena. O que continua do mesmo jeito é o clássico ego do metaleiro kkkkkkk, até hoje muitos ainda tem essa mania de acha que sabe tudo porque tem 20 a 30 anos de cena, aquele cara que tem banda que só vai no show que a banda dele toca, aquele que sempre vai falar só dá banda e história dele, infelizmente dentro desse meio é muita gente se achando e a maioria né porra nenhuma, tem muita gente que quer entrar nesse meio pra ser bajulado, famosinho, metido a real, e aquela cartilha velha do headbanger anos 80. Isso estraga porque dificilmente as conversas são produtivas, quem gosta e tem interesse em fazer um trabalho ou alguma parceria, pode ver, escolhe a dedo com quem vai falar e conversar, porque mesmo todo mundo ouvindo metal, a gente sabe que não é por conta disso que a pessoa vai ser legal ou gente boa, infelizmente é o que mais estraga e continua do mesmo jeito, a prova disso que as maiores bandas que surge no cenário brasileiro não são devidamente reconhecidas porque muitos preferem desmerecer o que vem da terra do que valorizar e apoiar um amigo ou conhecido. Sem falar naquele clássico que apoia sua banda, só não quer que você seja melhor que a banda dele kkkk Brasileiro é um bicho insano.
Meu amigo, quais são os planos futuros da banda? Como está a agenda de shows para o ano de 2026? (Estamos já no final do primeiro trimestre)
Cavalcante – Nossa agenda está bem pequena para esse ano, como falei acima, nosso foco esse ano é as gravações das nossas músicas, claro que quando surge um convite e podemos tocar, executamos sem problemas, mas até mesmo para termos mais convites e destaque dentro da cena, o plano futuro da banda mesmo é a gravação do nosso Full Álbum, esse sem dúvidas é a prioridade para 2026.
Para encerrarmos nossa conversa, você poderia mencionar cinco álbuns essenciais de black thrash metal que tiveram influência na sua formação como músico e fã de metal? Um grande abraço e força sempre!
Cavalcante – Obrigado, meu irmão, foi uma honra trocar uma ideia com você, e estamos juntos, Metal veloz até a morte!! Vamos lá!
1- Sadismo *(Power from hell)*
2- Evil Power *(Deathammer)*
3- Storming Evil *(Nocturnal)*
4- Under The Sign Of The Moon *(Cruel Force)*
5- Ascensão do Anticristo *(Amazarak)*
Obrigado demais pelo espaço e pela conversa muito boa, meu irmão!