
A cena extrema brasileira é uma das mais prolifera e respeitada no submundo mundial. Em meios aos trancos e barrancos, foi criando alicerces fortes e levantando um muro sólido que iniciou com os velhos guerreiros nos 80 com: Dorsal Atlântica, Vulcano, Sepultura, Sarcófago, The Mist e tantas outras bandas que não desistiram e persistiram. Krisiun, Podridão, Orthostat, Töhill, Zombie CookBook, Headhunter DC e tantas outras bandas continuam o legado do metal brasileiro. Em Florianópolis, capital de Santa Catarina, tem uma cena do submundo que resiste com ótimas bandas e entre elas o Cruciate. Fomos conversar com a baixista e fundadora do CRUCIATE, Rubia Domiciano e ela nos contou mais sobre sua luta na cena extrema.
Saudações Rúbia, é um prazer tê-la nas páginas do site The Old Coffin Spirit zine. Para iniciarmos nosso bate-papo gostaria de saber como você descobriu o Rock/Metal e o que isso mudou na sua vida e sua ótica em relação ao mundo?
Rúbia Domiciano: Eu comecei minha paixão pela música na minha cidade Natal (São Joaquim-SC) onde nos reunimos para fazer jams com os amigos, a princípio não sabíamos tocar nada era algo por diversão mesmo. Quando cheguei em Florianópolis foi onde minha percepção pelos instrumentos que eu tocava mudou, e foi onde vi que tinha que começar a praticar para ter êxito, minha vida hoje com a Cruciate mudou totalmente, faz parte da minha responsabilidade diária executar as demandas da banda junto com os outros integrantes. Quando cheguei conheci as gurias da inpurge e foi onde abracei a ideia com a Isadora ( Fundadora) mas eu era leiga e não sabia tocar uma nota, acabei desistindo do projeto.
Você nasceu em São Joaquim, na serra catarinense, né? Como era a cena em sua cidade natal e você disse que fazia algumas jams com amigos e tal. Chegou a ter alguma banda de garagem nessa fase de sua vida?
Rúbia Domiciano: Lá tinha no máximo 7 pessoas que tocavam e todos se reuniam, cena bem parada, eu não tinha muito contato com o death metal nessa época então eu tinha uma banda de garagem formada por mulheres chamada STRONG NOTES. (Kkkkk). Tocavamos alguns covers anos 2000, coisa fácil e algumas autorais
Você chegou a participar do início dessa nova banda formada só por garotas em Floripa e entre elas a L.Scarlet?(Ex- Spiritus Diabolus e atual Alocer) Estou ansioso para vê-las ao vivo. Essa banda promete, né?
Rúbia Domiciano: Sim , participamos eu e a laks ( atual vocalista da cruciate), a banda carrega uma bagagem muito grande das integrantes que possuem alguns anos de estrada.
Vejo com bons olhos essa atitude de mulheres, ou melhor, “essa nova geração de garotas” participando do submundo e tocando metal extremo. Você já sofreu algum preconceito por ser garota e participar de uma banda tocando baixo e levantando a bandeira e marcando território e dizendo: lugar de mulher é onde ela quiser tá ou ficar, ou mesmo ser o que ela quiser ser?
Rúbia Domiciano: Preconceito explícito não vivi ainda, mas a gente sempre escuta algo do tipo ” Vamos ver qual é a dessas minas aí” ou homens dizendo que o som é fraco e etc. Normalmente sempre vem de um homem. (kkkk)
Aliás, vocês são uma banda com posicionamentos progressistas e acho isso fantástico! Vocês não ficaram em cima do muro igual muitas bandas, com muitos anos de história dentro do submundo brasileiro, ficaram neutros. Vocês não têm receio de serem “canceladas por esses headbangers” que sempre usam o mesmo discurso de quarta série que metal e política não se misturam?
Rúbia Domiciano: Exato, não queremos deixar que as atrocidades (muitas vezes das próprias bandas que são exaltadas) caiam em esquecimento e pra nós não existe essa de separar a obra do artista.
Eu realmente não entendo o headbanger escutar uma música que é contra o status quo contra o conservadorismo e vêm dizer que política e metal não andam juntos. Como não? O black metal é contra as instituições eclesiásticas e o death metal suas letras falam de morte, decomposição e muito sangue. O thrash metal tem muitas influências do punk em suas letras e sempre tiveram um cunho social, né? Eu só acho que não leram as letras ou os headbangers que tem esse pensamento envelheceram muito mal. Qual sua opinião sobre esse assunto tão polêmico no underground?
Rúbia Domiciano: Eu acho que é falta de pesquisa mesmo, hoje em dia você joga tudo no metallum e lá diz tudo sobre a banda, não tem como dizer que não sabia do cunho NSBM das bandas de black metal. Falamos do black metal pois é um estilo que está mais em ascensão trazendo temas de cunho higienista. Enquanto isso o death metal também pode pegar mal pra algumas pessoas por suas letras falam muito de morte, mas não vejo essas bandas vangloriando e incentivando a praticarem o mesmo.
Em uma resposta sua, mais acima você disse: às vezes alguém diz que o som é fraco e tal. Normalmente é um homem que diz isso. A banda é de Florianópolis, nossa Santa Bela Catarina é conservadora e inclusive, tem muito conservadorismo no submundo de nosso estado, não deveria até porque rock/ metal é liberdade. “Faça o que tu queres a de ser tudo da lei, não é mesmo”? Enfim, Floripa mantém uma resistência e vejo uma cena bem progressista na capital catarinense. Como você vê a cena em Desterro? Quais bandas você curte aí da capital e como rolam os festivais e tem bares e casas que abrem as portas para o submundo autoral?
Rúbia Domiciano: Aqui em Floripa a cena é bem forte, tem várias bandas movimentando a cena, por aqui temos bandas como Inpurge, Sepulcro, Cujo, Necrocify, Pesadelo. Bandas do metal extremo e bandas que estão sempre fazendo acontecer e se posicionando, temos nossa casa de show preferida aqui da cidade que é o Haöma baixo centro que sempre nos dão todo o apoio possível, casas de show também como o Beco, Celula Show Case e até o Boo teko,no Rio vermelho.
Vamos falar agora um pouco da Cruciate. A banda nasceu em 2024, certo. Gostaria que você apresentasse a atual formação?
Rúbia Domiciano: A banda nasceu em 2024, eu estava com ideia de montarmos uma banda no estilo death metal, Renan abraçou a ideia comigo e inicialmente a Laksmin e o Vinicius que era da primeira formação. A nossa banda já passou por algumas trocas de guitarrista e hoje o Ardley abraçou a ideia de tocar conosco.
Recentemente vocês lançaram o EP “Cruciate Ligament Of Atlas” de 2024. Gostaria que você comentasse sobre quem foi o produtor, quem foi o artista por trás da capa e layout, estúdio onde foi gravado e vocês gostaram dessa primeira experiência em estúdio?
Rúbia Domiciano: Sobre o ep, as composições foram feitas pelo antigo Guitarrista (Guilherme Schulte ) a letra do clipe eu fiz e a letra da faixa Name The Shame a vocalista escreveu, gravamos a bateria e as cordas e vocal, foram gravadas pelo Leonardo na casa dele, foi algo bem leigo, gravamos sem metrônomo apenas com as vozes da cabeça. (kkk) A capa foi feita pelo artista Hellforge do Rio Grande Do Sul , queríamos algo que representasse o nome da banda que se chama Cruciate por conta de um ligamento do pescoço chamado de Cruciate Ligament Of Atlas, nome que virou título do EP. A faixa Smell Of Decay, que possui um clipe produzido pelo Rodrigo Scholze , fala sobre um homem que fez feijoada com carne humana, história real que aconteceu em 2024 na Bahia. A faixa Name The Shame abordamos sobre a ascensão dos nazistas novamente na sociedade em 2025. Sobre o clipe, gravamos em Blumenau no antigo quarto do Renan, o Rodrigo Scholze fez todo o trabalho de iluminação e levamos umas 10 horas para gravar todas as cenas.
Pois é, eu iria abordar sobre o clipe, mas você já antecipou o assunto. (Hahaha) Vocês disponibilizaram dois clipes na página da banda no YouTube. O primeiro foi um lyric vídeo para a faixa: “Nane The Shame”, mais simples. O segundo vídeo gostei bastante! É tudo que um clipe de death metal old school precisa ter. Uma composição poderosa, bruta, agressiva e muito sangue e violência. “Smell Of Decay”, na minha humilde opinião ficou muito bom! Gostei das cores vermelhas e de sangue escorrendo. Vocês fizeram em um quarto em 10 horas? O resultado ficou muito bom tanto no áudio quanto nas imagens. Como está sendo a recepção a esses dois vídeos clipes e vocês têm planos de trabalhar mais com audiovisual no futuro?
Rúbia Domiciano: Pessoal gostou bastante do clipe mesmo a gente pecando ou pouco com a mixagem da faixa, para ano de 2026 pretendemos lançar mais um Ep provavelmente com 4 ou 5 faixas e uma delas pretendemos lançar um clipe também, estamos trabalhando nas composições de novas músicas para esse EP.
Esse primeiro trabalho “Cruciate Ligament Of Atlas” só tem uma crítica: conter só duas músicas. Ele foi lançado independente em mídia física ou só nas plataformas de streaming?
Rúbia Domiciano: Ele foi lançado apenas nas plataformas, de forma independente, porém estamos cogitando lançar ele em fita.
O death metal praticado pela Cruciate é violento, agressivo e com um espírito old school e tem também uma pegada de goregrind. Vejo influências de Dismember, Carcass, Cannibal Corpse e Deicide, no som de vocês. Está certa essa minha colocação de bandas como influências? Quais outras bandas entram como influências em sua visão para a Cruciate criar o seu próprio som? Eu acredito que dentro do metal não se cria nada, já foi criado muita coisa. Influências é uma coisa né, já cópias e sem identidade é outra. Apesar de vocês terem só um trabalho lançado e ser um EP com duas faixas, já dá para sentir que vocês caminham para encontrar seu próprio som.
Rúbia Domiciano: Nós usamos bastante das influências do Brutal Death (mesmo não parecendo) como Deeds Of Flesh, Sintury, Devourment pois estamos caminhando para um death old school/slam death, usamos também influências do doom death como Derketa, Mythic e clássicos do old school como Convulse , Dismember, e até bandas mais puxadas para o goregrind como Dead Infection, Repulsion, fora as bandas atuais que possuem essa influência que volta e meia achamos perdidas nos garimpos do spotify que nos traz bastante inspiração. A ideia é que nosso ouvido vai apodrecendo cada vez mais e trazendo mais influências da famosa “PODREIRA”. A regra é clara, o som precisa ter groove, metranca, cadavérico e o famoso tupatupatupa. (Kkk) A ideia nunca foi riffs difíceis para mostrar sermos ótimos músicos, a ideia sempre foi colocar pra fora as influências que consumimos diariamente e riffs diretos e retos porém marcantes que causam pico de energia no público.
Falando nisso. Gostaria de saber quais bandas você anda ouvindo do submundo brasileiro e mundial, que tem seu apoio e que te chamou atenção ultimamente?
Rúbia Domiciano: Aqui do brasil estou ouvindo bastante Neural Abyss, Gutted Souls que já tem aí uma trajetória legal, o famoso Podridão também sempre está presente nos meus ouvidos, Murderess de Brasília que traz um death metal cavernoso, de bandas gringas ultimamente estou curtindo muito Dysmorphia e uma banda chamada MUTATE que trazem aí uma influência do oldschool com pitadas de slam.
Rúbia, como você vê a cena do submundo brasileiro?
Rúbia Domiciano: Eu vejo como um pessoal muito receptivo, os produtores sempre fazendo o melhor pelas bandas, mas também vejo como uma cena onde separam muito a obra do artista passando também um pano para bandas de cunho fascista, também trato a banda como um hobby e gostaria também que as bandas tivessem esse pensamento pois underground não dá dinheiro, fazemos porque gostamos, também vejo pessoas dando muito espaço para cover enquanto as bandas autorais pagam pra tocar e morrem de fome. Tem bandas que acham que vão ficar famosas e crescer no meio disso apenas porque saíram do estado para tocar e a possibilidade disso é de 1 em 100. O underground é lindo no instagram, mas os bastidores é banda dormindo no carro, banda tocando por chopp e água e tem gente por aí querendo cobrar mil reais pra tocar na própria cidade, mas esquecem que até os produtores são fodidos. (Kkk)
Concordo com tudo o que você disse. Também acredito que o headbanger brasileiro não ajuda muito, não. Vejo muitos pagando 300/400 reais em um vinil ou até 700 reais em um ingresso para ver banda do mainstream e reclama para pagar 40 reais em um cd de uma banda brasileira do submundo ou mesmo 50 reais para ir em um show underground. O cara gasta a grana dele com o que ele quiser, mas e aí, ele é mesmo do underground? E todos nós envolvidos com a cena estamos nessa por amor. Uma banda gasta dinheiro para gravar, ensaiar e manter os instrumentos. Um selo /distro investe grana e tempo para lançar uma banda. Um fanzineiro gasta grana e tempo para pesquisar sobre as bandas, elaborar uma entrevistas, investir grana com gráfica e correio. Site custa grana para manter-se online. O produtor investe grana com bandas, passagens, local do show, backline e alimentação. Para a roda girar todos que estão inseridos no submundo com o underground metálico tem que se apoiar, não é mesmo?
Rúbia Domiciano: Exatamente e também não comparecer apenas em rolê que vai tocar. (kkk) Isso acontece muito por aqui
Sim, garota! Vejo muitas bandas do underground com essa postura de rock star e só comparecem em eventos só quando tocam. E pior, bandas que você resenha o show, ou cd, ou mesmo o show deles e não compartilham nas páginas da própria banda e se sai uma notinha na Roadie Crew, compartilham com todo mundo. Essas bandas para mim não servem. Já entrevistei ou resenhei umas três com essas atitudes e nunca mais dou atenção para elas e está tudo bem. Lembrando que o show é o cd eu paguei, não ganhei de graça. A Cruciate como já citamos é uma banda nova, mas com um futuro promissor pela frente. Vocês têm feito bastante show pelo estado catarinense e inclusive tocaram no já tradicional Otacílio Rock Fest, na serra catarinense. Para quem não os viu ao vivo ainda eu gostaria que você dissesse para nossos leitores e amigos, futuros admirados da banda, o que eles vão encontrar em uma apresentação ao vivo da banda?
Rúbia Domiciano: Eu diria que o ouvinte do nosso show vai encontrar um som direto e reto sem muitas técnicas para se admirar, mas nos entregamos em cima do palco, damos toda a nossa energia tocando para 5 pessoas ou para 50, a vibe sempre é a mesma! Não somos perfeitos, apenas queremos transmitir algo para o pessoal que tem vontade de tocar e pensar “eu também posso fazer“. Nosso show é livre de amarras e tocamos tanto em eventos mais alternativos com bandas mais alternativas e fora da nossa bolha de estilo quanto para públicos mais específicos do underground, e vou te dizer que nosso melhor show foi um que tinha 10 pessoas assistindo, mas às 10 estavam extremamente energéticas e doidas. (kkkk) Hoje nosso repertório possui apenas 6 músicas pois tivemos que retirar alguns sons da outra formação que não fazia mais parte do nosso estilo, mas estamos trabalhando para repor esses sons.
É óbvio que ser técnico é importante, né? Mas não adianta ser técnico e não ter feeling, não ter alma no som que a banda está tocando ali em cima do palco. Quais os planos futuros para a banda?
Rúbia Domiciano: Esse ano iremos entrar numa mini tour de dois dias que serão São Paulo e Curitiba, ano que vem já temos alguns shows na agenda mas ao mesmo tempo iremos conciliar com as gravações do novo EP !
Rúbia, porque você escolheu o baixo para ser seu instrumento para dar seu recado e quais baixistas te influenciaram?
Rúbia Domiciano: Eu comecei tocando guitarra mas nunca tive o interesse de aprender com êxito, quando peguei o baixo me encantei pelos graves e acabei escolhendo ele para ser meu aliado! Baixistas que me inspiro muito eu poderia citar Robin Maze, Jo Bench, Athena do Hedonist e Derek Boyer do suffocation.
Rúbia, foi muito bom esse bate-papo que tivemos. Para finalizarmos, suas considerações finais, mas antes quero saber 5 discos de metal que você acha essencial para o estilo?
Rúbia Domiciano:
1- Convulse (Wordl Without God)
2- Sintury ( Disgorging The Dead)
3- Derketa ( The Unholy Ground demo 90′)
4- Deeds of Flesh (Gradually Melted)
5- Sentenced ( Shadows Of The Past)
A Cruciate, agradece o apoio e obrigado ao The Old Coffin Spirit zine!