Razorfest
Cruciate (sc )Homicide (sc) RedRazor (sc) Facada (CE) Escarnium(BA)
local- Haöma Bar/Florianópolis(SC
Data- 04/04/2026
fotos by- Walter Bacckus
Não é qualquer banda que comemora 15 anos no underground brasileiro, tarefa difícil em uma cena que não tem apoio financeiro ou incentivo de órgãos públicos, tocando Heavy Metal, no país do futebol, pagode e sertanejo. Como sempre no underground, as pessoas não ficam lamentando; elas se unem e fazem a roda girar. Foi assim que aconteceu o Razor Fest, em parceria com a banda Red Razor, de Floripa, e a produtora local Bruxa Verde Produções.
Os aniversariantes convidaram as bandas amigas da cena local: Cruciate e Homicide. Também contaram com a presença dos convidados especiais para a celebração, Facada do Ceará e os baianos da Escarnium. Divulgando novos trabalhos: Truculence (2025) dos cearenses e Inexorable Entropy (2025) dos baianos, ambos resenhados aqui no site recentemente.
Gostaria de destacar que a noite foi verdadeiramente especial. Todas as bandas que se apresentaram no evento no Haöma Bar são comprometidas com uma proposta progressista e não ficaram em cima do muro diante de um momento tão turbulento que o Brasil e o mundo vivem! Foi uma noite de metal extremo e de resistência contra a xenofobia e o fascismo, com todas as bandas demonstrando discursos e atitudes progressistas.
Algumas pessoas costumam dizer que metal e política não se misturam e que o mundo está muito chato. Sim, é inegável que o mundo passou por mudanças, e o Rock ‘n’ Roll sempre esteve nas lutas progressistas e no lado dos oprimidos.
Sábado tivemos diversos eventos na cidade e, mesmo assim, a casa estava cheia. A abertura ficou por conta da Cruciate. Eu ainda não havia assistido ao show deles como quarteto, com duas guitarras, e posso afirmar uma coisa: o som ficou mais pesado, intenso e insano.
O show do quarteto de Desterro foi assim: eles tocaram Name the Shame, Pleasure of Torture e Dirty War. Na sequência, a banda convidou Rosângela ao palco para fazer a introdução da música Smell of Decay. O vocalista Gregor, da banda Cujo, também subiu ao palco para cantar essa música, que já possui uma sonoridade intensa, e com a participação de Gregor, a música se tornou ainda mais pesada e caótica, trazendo uma pegada mais brutal.
É impressionante como a Cruciate consegue fazer um show intenso, simples e direto! A banda passou recentemente pela saída inesperada da vocalista Lakshmi Bittencourt, mas isso não impactou em nada a apresentação. Na verdade, o guitarrista Ardley Lucas assumiu os vocais, e eles são os mais horríveis possíveis (no bom sentido) e o resultado foi ainda mais surpreendente, combinando perfeitamente com o brutal death metal, misturado com grind e algumas pitadas de slam.
Vale acrescentar também como a entrada da guitarrista Amábile Biz trouxe peso e uma pegada brutal, consistente e preenchendo vazios que faltava para á banda ao vivo.

Caminhando para o final do show, a banda apresenta duas músicas novas: Nekromantik e Ancestral Hatred. Antes de tocar a última música, o vocalista Ardley, que subiu ao palco com pinturas indígenas no rosto, mesmo sendo ainda tão jovem, fez um discurso abordando o tema da nova música. Ele falou sobre seu orgulho por ser descendente dos povos originários e ressaltou que não devemos ter vergonha de nossas raízes indígenas, lembrando que o brasileiro nativo carrega em suas veias o sangue dos indígenas.
Foi muito aplaudido pelo público, e a pista se transformou em um verdadeiro caos! A banda finalizou sua apresentação, e a plateia pediu bis! Mais um, mais um… Eles retornaram e tocaram Shredded to Pieces, deixando o palco sob aplausos do público presente, consolidando seu nome na cena local e provando que, quem sabe, faz ao vivo.
Com vinte anos de história no cenário underground catarinense, o Homicide subiu ao palco e apresentou um show intenso e impactante! A banda conta com três álbuns completos lançados: O que O Cerca Está Morto (2012), Destrutivo (2014) e In Grind We Trust (2016), além do mais recente EP, Ruir (2017).
O grupo de homicidas apresentou um grindcore veloz e brutal, combinando elementos de death metal e crustcore, com uma identidade própria. O quarteto, formado por Marlon na bateria, Diego na guitarra e vocais, Sommer no baixo e vocais, e Ricardo como vocalista principal, provaram que eles têm veneno no sangue, esse veneno é grindcore!
E, como todo bom grindcore, a apresentação foi caótica, visceral, rápida e intensa. A banda executou um set com 17 faixas, começando com Devastação Final, Anti-Humano e Ordem To Kill. Não faltaram blast beats, riffs pesados e vocais cavernosos e gritados, o que transformou a pista em um verdadeiro caos e insanidade, com muitas rodas violentas. Ainda tocaram Boy Lixo, Esqueça a Decadência e diversas outras músicas, mostrando que 20 anos de experiências nos subterrâneos, esgotos e bueiros realmente fazem a diferença no palco! Experiência e domínio de palco, destilando uma intensa energia e um toque de caos e fúria violenta, é para poucos! E ainda executaram um cover de Fear Of Napalm, dos grandes mestres do grindcore mundial!
Os anfitriões e aniversariantes da noite subiram ao palco e apresentaram um set incrível, transmitindo a alegria de tocar o tradicional e violento thrash metal com fúria, dedicação e devoção. E como esses quinze anos trouxeram experiência e maturidade para a Red Razor!
A banda foi formada em Florianópolis (SC) em 2011, em meio àquele movimento que ficou conhecido como“thrash retrô”, do início dos anos 2000, que teve às bandas brasileiras Bywar e Violator, na linha de frente. Em 2013, lançaram a fita demo Shark Attack e dois álbuns completos: Beer Revolution (2015) e The Revolution Continues.(2019)
Construíram seu nome no submundo local e caíram na estrada tocando no sul do Brasil e nordeste do país, e ganhando respeito com seu thrash metal.
O trio liderado pelo guitarrista e vocalista Fabrício Valle subiu ao palco junto com seus companheiros de banda, Gustavo Kretzer no baixo e Igor Thiesen na bateria, trazendo um potente, rápido e agressivo thrash metal. Com letras exaltando a paixão pela cerveja e letras de protesto.
Iniciaram a comemoração dos 15 anos com The Revolution Continues Intro e Wish You Were Beer, fazendo a alegria dos presentes com um thrashão violento e técnico! O show
prossegue com “For Those About to Thrash, e o vocalista Fabrício se dirige ao microfone, dizendo: Estamos aqui celebrando 15 anos de história, relembrando nosso passado, mas também de olho no futuro. Ele então anuncia uma nova música, que é a primeira composição da banda em português: Até Morrer, fazendo a alegria dos presentes com um thrashão violento!
O show continua e o som dos manezinhos da Ilha da Magia é bastante voltado para o espírito old school do thrash metal, com toques de death metal, e eu realmente gostei dessa faixa! Violent Times traz uma pegada do velho Slayer, tanto nos vocais quanto no ritmo da música! A energia se mantém intensa com Annihilation e Posthuman Society. Fabrício vai ao microfone e diz: Ninguém é igual a ninguém, ninguém é melhor que ninguém, e o sul não é o meu país! Red Razor pede desculpas ao norte e ao nordeste do Brasil! Queremos pedir desculpas às bandas do Nordeste que irão tocar aqui depois de nós! Desculpas ao Facada! Desculpas ao Escarnium!
E eles mandam a música ‘Born in South America’! Que faixa incrível, vibrante e com um refrão que fica na cabeça: ‘Born in South Americaaaa!’ Sem dúvida, esse power trio, que adora cerveja e metal rápido, entende do recado e são músicos extremamente talentosos. Com paradinhas mortais, baixo explodindo e dando peso, bateria rápida e furiosa, vocais insanos, e backing vocals muito bem executados pelo baixista Gustavo.
Estamos nos aproximando do final do show, e os trashers nos trazem a poderosa Malignant Cell, e uma homenagem matadora aos Ratos de Porão, e mandam Crucificados pelo Sistema e encerrando o show com a música que nomeia a banda, Red Razor. Foi uma comemoração de aniversário maravilhosa e um show sensacional! Que venham mais 15 anos de luta, resistência, muitas cervejas e metal veloz!
A terceira banda da noite é formada pelos baianos que atualmente vivem na Alemanha. Pela segunda vez, eles se apresentam em Florianópolis e, novamente, no Haöma Bar. O público aguardava ansioso em frente ao palco pela apresentação do Escarnium. A banda entrou no palco ao som de uma introdução do clássico filme de Stanley Kubrick, “Laranja Mecânica” (1971), criando uma atmosfera caótica e repleta de violência para estourar os tímpanos de todos os presentes.
E já mandam,’Relentless Katabasis’, uma música nova do seu novo álbum ‘Inexorable Entropy’, lançado em 2025, que foi muito bem recebido pelo público. Os fãs receberam muito bem a banda, que mandou outras pedradas, como Far Beyond Primitive, The Heritage e Interitus. A apresentação dos baianos foi intensa e de pura brutalidade!
Na pista, os fãs do metal da morte balançavam a cabeça de forma intensa, e as rodas eram formadas! O show continuou com os hinos sombrios Deluged In Miasma, Cancerous Abyss e Pyrocene ‘s Might. Não é à toa que o Escarnium é um dos grandes nomes do death metal brasileiro, e sua apresentação é uma verdadeira ode ao metal extremo!
A banda é uma verdadeira homenagem ao espírito do death metal old school. Com riffs intensos, técnica impecável e o baterista é simplesmente impressionante, destruindo tudo atrás de seu kit de bateria. O que Nestor Carrera toca é de tirar o fôlego: é brutal, é técnico, é preciso e sabe mesclar partes rápidas com trechos mais cadenciados, criando uma atmosfera verdadeiramente demoníaca.
Durante a metade do show dos baianos, Victor Elian, guitarrista e vocalista, começou a enfrentar problemas com o pedestal que teimava em sair do lugar e caía constantemente no chão. Para complicar ainda mais, o microfone também apresentou falhas e estava com o volume mais baixo do que os outros instrumentos. A banda se virou nos trinta para entregar uma apresentação fodida e violenta, especialmente Victor Elian.
Fora isso, o show foi incrível e intenso! Os manezinhos da ilha abraçaram os baianos, criando uma conexão única que só o metal é capaz de proporcionar. Ao se aproximar do final da apresentação da Escarnium, rolou uma INTRO e em seguida tocaram Inexorable Entropy, seguida de outra INTRO, encerrando com a poderosa While The Furnace Burns, e o fim do caos baiano em Floripa!
O público aplaudiu muito a banda e pediu bis, mas ela não retornou para o encore. Como é importante que uma banda do nível da Escarnium volte à capital catarinense, especialmente porque muitos fãs de death metal que estiveram presentes em 2024 retornaram em 2026, trazendo novos amigos que ouviram falar do show incrível que eles fizeram na sua primeira passagem por Floripa.
Esta segunda apresentação dos baianos reforça que a cena em Florianópolis, tem muitas pessoas fazendo a roda girar para o crescimento do submundo na capital catarinense. Com certeza, a Escarnium conquistou muitos novos fãs em Santa Catarina!
Fechando o Razor Fest, os cearenses do Facada subiram no palco para fechar com chave de ouro essa grande comemoração do submundo brasileiro e o público, estava ansioso para vê-los em Floripa pela primeira vez.
Foi uma pena que a aparelhagem não ajudou a banda! Infelizmente, durante a apresentação da Facada, as coisas não melhoraram e só pioraram. No entanto, tanto a banda quanto o público não se deixaram abater e estavam lá apenas para aproveitar o show da melhor maneira possível. Ou seja, houve uma troca de energias positivas, tanto do público quanto da banda em cima do palco e provando que o submundo é para poucos!
O Facada, está divulgando o último lançamento deles, chamado: Truculence. James vocal/baixo, Danyel/guitarra e Vicente Ferreira, na bateria, passearam por quase toda a discografia da banda e fizeram a alegria do público! Quem acompanha a cena extrema brasileira conhece a grandiosa discografia da banda.
Entre eles, destaca-se o aclamado pela crítica e pelo público, Indigesto, um trabalho lançado em 2006. O trio extremo do goregrind brasileiro apresentou um setlist com 21 faixas brutais, furiosas, agressivas e repletas de muita raiva e ódio.
A apresentação começou com uma introdução e mandaram pedradas de quilates como Istagrinder, Socorro, Playing With Soul, O Joio, 9mm De Redenção e Tu Vai Cair. James agradeceu ao público e expressou sua alegria por participar da festa do Red Razor, agradecendo também à produção Bruxa Verde, ao Escarnium e às bandas Cruciate e Homicide. Sem piedade e sem compaixão, eles executam a segunda música do novo álbum, Sangrando Concreto, seguida por Descendo Sangue, Emptier e Apocalipse Agora.

O público estava literalmente em um caos apocalíptico na frente do palco! Se divertindo muito e apoiando a banda, enquanto várias rodas se formavam na pista. Os músicos do Facada entregaram um show intenso, violento, insano e cheio de energia, com seu grindcore pesado, sujo , agressivo e visceral.
Guitarras com muito peso e uma bateria intensa e rápida! Senti um pouco de pena do baixista e vocalista, James, que realmente estava se esforçando ao máximo para ser ouvido pela plateia, mas sua voz quase não conseguia se destacar. Não sei quem é o culpado, mas o volume da voz estava bastante baixo e o microfone não ajudava.
Eu já estava com dor no estômago ao ver todo o esforço do vocalista, e mesmo assim, James não fez reclamações; ele apenas deu tudo de si em uma performance incrível, sem se comportar como uma rock star!
Tem muitos no underground que só reclamam e com muito menos história e respeito que o Facada tem na cena extrema!
O show dos cearenses caminha para o final, com mais pedradas em forma de músicas intensas e letras com temáticas sociais, como Cidade Morta, Culpa, Falta Excesso, Saudade Não Acaba, Mente Engana e Nadir.
A banda realmente é uma verdadeira avalanche sonora em cima do palco, o guitarrista Danyel demonstrando muito foco e muito concentrado. Seguimos para o final da apresentação, com as músicas O Cobrador, Amanhã Vai Ser Pior, Chovendo Baratas e Dwyer/Mantra, encerra seu show violento, o público pedindo bis! Mas, a banda não retornou ao palco! O público presente ficou muito feliz com a passagem de uma das bandas mais expressivas e respeitadas na nossa grandiosa cena goregrind brasileira, por Floripa pela primeira vez na capital catarinense.
Os músicos do Facada estavam muito tranquilos e respeitosos, conversando com o público e tirando fotos com todos que os procuravam. Outro ponto que me chamou a atenção foi ver o Victor Elian, guitarrista e vocalista da Escarnium, na frente do palco, apoiando e batendo cabeça na apresentação da Cruciate. Além disso, todos os outros integrantes da banda são muito educados e atenciosos com todos!
O underground não é para posers ou para rock stars ! Underground é um movimento, uma cena que valoriza o respeito e a união entre o público, as bandas/músicos e os organizadores de eventos. Unidos somos mais fortes!